Por: Alex Rabelo — jornalista e analista político | MT Urgente News
O prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL), anunciou que não pretende repetir neste ano o hábito de frequentar semanalmente as sessões plenárias da Câmara Municipal, como ocorreu ao longo de 2025. A presença constante do chefe do Executivo, sempre às terças e quintas-feiras, foi um dos assuntos que mais dividiram opiniões entre os parlamentares no ano passado, levantando debates sobre independência, harmonia e limites entre os Poderes.
Em sua primeira entrevista à imprensa neste segundo ano de mandato, Abilio afirmou que adotará cautela nas agendas dentro do Legislativo, especialmente por se tratar de período eleitoral, quando parte dos vereadores deve se dedicar às pré-campanhas. Segundo ele, a redução do fluxo nos corredores da Casa não representará qualquer ruptura na relação institucional com o Parlamento.
“Está bom, tudo bem. Sem problema nenhum encerrar as visitas. Acho muito bom diminuir. Como é ano eleitoral, acredito que a Câmara terá menos atenção nesse período e muitos vereadores vão começar a ficar mais ausentes das sessões”, declarou o prefeito na noite de terça-feira (6).
Alfinetada direta em Jefferson Siqueira
Sem perder o tom provocativo que marca suas falas, Abilio cutucou o vereador Jefferson Siqueira (PSD), um dos principais nomes da oposição. O prefeito disse ter ido ao plenário mais vezes que o próprio adversário, que teria reduzido a frequência no último trimestre por atuar em campanhas de terceiros.
“Pelo que pude ver, eu estive mais presente na Câmara que o Jefferson, que é meu vereador de oposição. Ele está ajudando pré-campanha de outros candidatos e tem frequentado menos que eu. Se olhar a frequência, também estou mais presente que ele”, disparou.
Abilio ainda reconheceu que sua presença gerava constrangimento ao evidenciar ausências de parlamentares, mas ponderou que, daqui para frente, prefere não ser instrumento desse embate.
Tema foi alvo de críticas em 2025
Logo no primeiro ano da atual legislatura, vereadores já apontavam incômodo. Em março, Daniel Monteiro (Republicanos) classificou como “excessiva” a circulação do prefeito, defendendo que a Câmara precisa afastar a imagem histórica de subserviência ao Alencastro — o chamado “puxadinho do Alencastro”, expressão popularizada na gestão de Emanuel Pinheiro (MDB).
“A gente tem que tirar essa pecha da Câmara como um todo. Se houver alguém subserviente, que se diga nome a nome, porque senão denigre e atrapalha a imagem do Parlamento perante a população cuiabana”, afirmou Monteiro à época.
Recentemente, a presidente da Câmara, Paula Calil (PL), confirmou que conversou pessoalmente com Abilio para diminuir o ritmo das visitas. Ela garante não se incomodar, mas admite que colegas relatavam desconforto recorrente.
Calil explicou que repassou a queixa de forma transparente ao prefeito e que a relação entre os Poderes segue respeitosa, com foco na votação de projetos estruturantes para Cuiabá.
Novo debate institucional em ano eleitoral
Para além das alfinetadas, o episódio revela um dilema real da política cuiabana. De um lado, o prefeito argumenta que a rotina eleitoral naturalmente reduzirá a presença de todos na Casa. De outro, vereadores temem que o afastamento físico do chefe do Executivo seja interpretado como recuo no diálogo justamente quando tramitam pautas sensíveis — como reforma administrativa, transporte coletivo e revisão de contratos.
A própria presidente Paula Calil reforçou que a harmonia institucional depende de pontes permanentes, e não apenas de agendas protocolares. Segundo ela, o Parlamento precisa manter protagonismo e cobrar resultados do Alencastro sem perder a cooperação.
Especialistas ouvidos pelo MT Urgente lembram que a Constituição fala em independência e harmonia. Isso significa que proximidade não pode virar pressão, mas distância também não pode se transformar em omissão. Com 2026 batendo à porta, o desafio será medir se as promessas do prefeito vão resultar em:
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Câmara mais forte e atuante, ou
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Legislativo esvaziado pelo calendário eleitoral.
O prefeito garante que seguirá respeitando os vereadores. Resta saber, na prática, quem estará mais presente para cuidar de Cuiabá: os corredores da política ou as sessões que decidem o futuro da cidade.
Pergunta ao leitor: você acredita que menos visitas do prefeito fortalecem a Câmara ou prejudicam o debate público?















