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Crise interna no IBGE pressiona revisão histórica do PIB e levanta alerta sobre credibilidade dos dados

A revisão das contas nacionais conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística entrou em uma fase delicada em meio a uma crise administrativa que preocupa especialistas e ex-dirigentes do órgão. O instituto trabalha desde 2024 na atualização da metodologia de cálculo do PIB, um processo que ocorre em média a cada dez anos e que, desta vez, incorpora novas diretrizes internacionais voltadas a medir impactos ambientais, economia digital, exploração de recursos naturais, desigualdade e bem-estar.

A nova base de cálculo deverá adotar 2021 como ano de referência, substituindo 2010. Para isso, os técnicos integram dados de um novo censo demográfico, da Pesquisa de Orçamentos Familiares e do censo agropecuário, além de orientações de organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Enquanto a nova série histórica é construída, a metodologia atual continua em vigor até a conclusão da revisão.

O processo, considerado um dos mais complexos já enfrentados pelo instituto, foi abalado por uma sequência de exonerações na área responsável pelas contas nacionais. A saída da coordenadora Rebeca Palis, que liderava o cálculo do PIB havia mais de uma década, foi seguida pela demissão de gerentes estratégicos, provocando um esvaziamento da equipe de chefia em pleno andamento da revisão.

Ex-presidentes do IBGE avaliam que a mudança de comando nesse momento pode comprometer a percepção pública sobre os resultados futuros. Para Roberto Olinto, a substituição em meio ao recálculo é inadequada e pode afetar a credibilidade de um trabalho técnico que sustenta diversos indicadores econômicos usados na formulação de políticas públicas. Ele ressalta que eventuais revisões positivas do PIB, esperadas por especialistas devido à incorporação de novas variáveis, correm o risco de serem interpretadas como interferência política.

Avaliação semelhante é feita por Wasmália Bivar, que presidiu o instituto entre 2011 e 2016. Segundo ela, a instabilidade administrativa pode gerar ruído justamente quando o IBGE precisa reforçar a confiança na atualização metodológica. A revisão do PIB é um procedimento técnico recomendado internacionalmente para evitar a defasagem das estruturas econômicas captadas pelas estatísticas e garantir comparabilidade entre países.

Nos bastidores, servidores associam as exonerações a divergências internas sobre gestão e cronogramas de projetos, incluindo a elaboração do PIB municipal. Há relatos de dificuldades operacionais para conduzir simultaneamente a revisão da série histórica, a manutenção dos cálculos correntes e outras pesquisas de grande porte. A recente substituição de chefias em diferentes áreas, inclusive na comunicação e em setores técnicos, ampliou a percepção de instabilidade entre funcionários.

Especialistas alertam que, além do impacto institucional, a revisão das contas nacionais tem efeito direto sobre indicadores de investimento, poupança, contas externas e planejamento governamental. A credibilidade do IBGE, construída ao longo de décadas como referência em produção estatística, é vista como elemento central para a aceitação pública dos novos números.

Procurado para comentar as exonerações e a condução da revisão, o instituto não apresentou esclarecimentos públicos até o encerramento da apuração. Enquanto isso, a divulgação do PIB mais recente segue prevista para o início de março, em meio a um cenário em que o desafio técnico da atualização metodológica se soma a uma crise de gestão sem precedentes recentes. (Nossa Agência)

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Cuiabá-MT 18.02.2026 14:22

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