A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinando a cassação imediata da deputada Carla Zambelli (PL-SP) e anulando a votação da Câmara dos Deputados, abriu um novo e intenso embate institucional entre o Judiciário e o Legislativo. O choque recoloca em pauta um debate sensível: quem tem a palavra final sobre a perda de mandato de um parlamentar condenado criminalmente?
STF x Câmara: quem decide a cassação?
No despacho, Moraes afirma que a Constituição é clara: parlamentar condenado criminalmente com trânsito em julgado perde o mandato por decisão judicial, cabendo à Câmara apenas formalizar o ato, sem possibilidade de reverter ou revisar o mérito.
O ministro classificou a votação que salvou Zambelli como um “ato nulo”, por violar dispositivos constitucionais e representar um “desvio de finalidade”.
A reação do STF veio menos de 24 horas após a Câmara, em sessão esvaziada e de madrugada, rejeitar a cassação de Zambelli por 227 votos contra 110, quando eram necessários 257 para derrubar o mandato.
Motta recuou duas vezes antes de ser confrontado pelo STF
A condução do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), virou um dos pontos centrais da crise.
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Em junho, Motta defendeu publicamente que a cassação não deveria ser votada pela Câmara, porque a decisão judicial já existia.
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No dia seguinte, pressionado pela ala bolsonarista, recuou e disse que o plenário era “soberano”.
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Na madrugada de 11/12, tentou adiar a votação alegando baixo quórum — o que foi ignorado — e Zambelli acabou preservada.
Com a decisão de Moraes, Motta agora tem 48 horas para cumprir a determinação e dar posse ao suplente.
O caso reacende tensão após semana marcada por outra disputa institucional
A decisão ocorre logo após um breve “cessar-fogo” entre Supremo e Congresso.
Na semana anterior, o ministro Gilmar Mendes havia recuado parcialmente de uma liminar que mexia nas regras sobre pedidos de impeachment de ministros do STF, após forte reação de senadores.
Agora, com o caso Zambelli, o conflito entre os Poderes volta ao centro do noticiário.
Contexto: STF e Congresso acumulam embates recentes
Nos últimos anos, os Poderes se enfrentaram em temas como:
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Orçamento secreto
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Marco temporal das terras indígenas
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Descriminalização da maconha
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Desoneração da folha
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Competência para afastamento e julgamento de ministros do STF
O caso Zambelli adiciona um novo capítulo à disputa institucional.
Como o caso chegou até aqui
Em maio de 2024, a Primeira Turma do STF condenou Zambelli a 10 anos de prisão por participação na invasão dos sistemas do CNJ, e determinou:
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perda do mandato,
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comunicação imediata à Câmara para formalizar a vacância,
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início dos trâmites para posse do suplente.
A Câmara, no entanto, votou e decidiu manter o mandato — decisão revertida agora por Moraes.
Bolsonaristas reagem e partem para o ataque contra o STF
A decisão provocou forte reação da bancada do PL na Câmara.
O líder do partido, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), chamou Moraes de “ditador psicopata”, afirmando que o ministro “passou por cima da vontade do Parlamento” e cometeu “abuso absoluto de poder”.
Segundo ele:
“O Brasil viu um ato de usurpação institucional: um homem passando por cima do Parlamento e da vontade do povo.”
Outros parlamentares da oposição replicaram críticas semelhantes, acusando o STF de interferir no Poder Legislativo e “rasgar a separação dos Poderes”.
Crise aberta: e agora?
O caso reacende debates sobre:
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limites entre Poder Legislativo e Judiciário,
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quem decide cassação de mandato,
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até onde vai a autonomia da Câmara em casos de condenação criminal,
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e como o STF deve agir diante de decisões consideradas inconstitucionais.
A determinação de Moraes, além de ter impacto direto sobre Zambelli, pode criar jurisprudência para casos semelhantes, ampliando o poder do Judiciário sobre perdas de mandato.
Enquanto isso, o governo federal, o Congresso e o STF entram novamente em clima de tensão — e a crise institucional que parecia arrefecer volta a ganhar força.















