A saúde mental de crianças e adolescentes voltou ao centro do debate em Mato Grosso diante do crescimento da demanda por atendimento especializado e das limitações da rede pública em Cuiabá. Durante reunião da Câmara Setorial Temática da Atenção Psicossocial, realizada nesta segunda-feira (23), na Assembleia Legislativa, representantes da saúde, do Legislativo e do sistema de justiça apontaram gargalos que impactam diretamente o acesso ao cuidado.
De acordo com dados apresentados pela Secretaria Municipal de Saúde, cerca de 162 mil jovens de até 18 anos integram o público potencial da atenção psicossocial na capital. Apesar disso, a estrutura disponível ainda é considerada insuficiente: atualmente, apenas duas unidades de Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSI) atendem essa população.
Segundo o representante da pasta, Matheus Ricardo Souza, o município já cumpre os critérios técnicos para ampliar a rede, mas ainda não conseguiu avançar na implantação de novas unidades. Ele destacou que os CAPSI funcionam com portas abertas, acolhendo pacientes sem necessidade de encaminhamento, com acompanhamento de equipes multidisciplinares e oferta de atividades terapêuticas diversas.
No entanto, a limitação de horário de funcionamento das unidades tem gerado lacunas no atendimento, principalmente em situações de urgência. A expectativa, segundo ele, é a criação de um CAPSI com funcionamento 24 horas, o que permitiria dar respostas mais rápidas a casos emergenciais.
Além do atendimento clínico, foi ressaltada a importância de estratégias complementares, como atividades educativas e terapias expressivas, bem como o envolvimento familiar no processo de cuidado. A proposta da política de atenção psicossocial, conforme reforçado, é garantir a reinserção social dos pacientes, evitando a institucionalização prolongada.
O deputado estadual Carlos Avallone afirmou que a Câmara Temática tem buscado encaminhar soluções práticas e articular recursos junto a órgãos como o Ministério Público e o governo estadual. Apesar de reconhecer avanços, ele alertou que ainda há distância entre o que está previsto e o que é efetivamente oferecido à população, o que tem gerado angústia em famílias e sobrecarga em instituições como a Defensoria Pública.
Na mesma linha, o defensor público Denis Thomaz Rodrigues chamou atenção para a ausência de protocolos padronizados no atendimento à saúde mental nas unidades básicas. Segundo ele, a falta de diretrizes claras compromete a agilidade e a eficácia dos atendimentos, fazendo com que situações que poderiam ser resolvidas precocemente acabem se agravando.
Rodrigues também criticou a desarticulação entre os órgãos públicos, apontando que a falta de integração tem levado à judicialização frequente de casos, aumentando custos e prolongando o sofrimento de pacientes e familiares. Ele destacou, ainda, a dificuldade enfrentada por famílias de adolescentes com dependência química, que muitas vezes não encontram suporte adequado na rede pública.
O cenário exposto durante a reunião evidencia que, embora existam avanços na estruturação da política de saúde mental, a capital ainda enfrenta desafios significativos para garantir atendimento amplo, contínuo e eficiente à população infantojuvenil.


