O governador em exercício de Mato Grosso, Otaviano Pivetta (Republicanos), participou da abertura da Norte Show, em Sinop, mas o tom adotado durante o discurso destoou do caráter técnico do evento. Voltada à inovação e ao desenvolvimento do agronegócio, a feira acabou sendo utilizada como palco para posicionamentos políticos e críticas generalizadas.
Logo no início, Pivetta afirmou que pretende “se divertir” durante o período eleitoral, em uma fala que reforçou o viés político em um ambiente originalmente voltado ao setor produtivo. Na sequência, passou a fazer críticas a adversários e ao cenário nacional, incluindo declarações de cunho político direcionadas ao Congresso Nacional.
Durante o discurso, o governador afirmou que não há corrupção no governo estadual e que a gestão não realiza “negócios” com parlamentares. Ao mesmo tempo, declarou ter conhecimento de práticas irregulares em diversas prefeituras do interior, sem apresentar nomes, provas ou encaminhamentos formais.
A declaração acabou colocando, de forma ampla, gestões municipais sob suspeita, inclusive a administração de Sinop, que o recebeu institucionalmente. O posicionamento foi interpretado como um ataque generalizado às prefeituras, sem distinção ou detalhamento.
Ao tratar de obras de infraestrutura, como a BR-163, Pivetta atribuiu os avanços ao governo estadual, destacando investimentos e melhorias. No entanto, não mencionou a participação de financiamentos, concessões e parcerias com o governo federal, que também integram o processo de execução e viabilização das obras.
Além disso, relatos recentes levantados por profissionais da área de engenharia em Sinop apontam questionamentos sobre a qualidade de serviços executados em trechos da rodovia, com alertas sobre possíveis impactos futuros. As manifestações ainda não resultaram, até o momento, em posicionamentos oficiais amplamente divulgados, mas passaram a circular no debate local.
As declarações do governador ocorrem em um contexto marcado por episódios recentes. Entre eles, a repercussão de um vídeo envolvendo o deputado estadual Valmir Moretto, no qual ele aparece comemorando o resultado de uma licitação. Também voltaram ao debate discussões sobre o chamado “caso Oi”, envolvendo a Oi, além da pressão por instalação de uma CPI da Saúde para investigar contratos e a aplicação de recursos públicos.
O histórico de declarações de Pivetta também voltou à tona. Em ocasiões anteriores, ele afirmou que cerca de 14 deputados estaduais estariam envolvidos em práticas irregulares relacionadas à destinação de recursos públicos, o que gerou reação no Legislativo e elevou a tensão institucional.
Além disso, o nome do governador em exercício está ligado a um volume expressivo de processos judiciais e administrativos ao longo dos anos. Levantamentos em bases públicas indicam sua participação em centenas de ações, envolvendo questões ambientais, disputas empresariais, execuções fiscais, ações trabalhistas e processos eleitorais.
Entre os casos mais conhecidos está uma multa ambiental por queimada registrada em 2010 em área rural de Lucas do Rio Verde, além de decisão do Tribunal de Contas da União que apontou irregularidades na aquisição de uma unidade móvel de saúde durante sua gestão como prefeito.
No setor empresarial, disputas milionárias envolvendo contratos do agronegócio também marcaram sua trajetória. O nome de Pivetta também aparece citado em investigações relacionadas ao caso Cooperlucas, embora sua defesa negue envolvimento direto.
Outro episódio de repercussão nacional envolve denúncia de violência doméstica feita por sua ex-esposa, exibida em reportagem do programa Fantástico, ocasião em que houve concessão de medida protetiva pela Justiça, conforme divulgado.
Na esfera eleitoral, há registros de questionamentos judiciais, aplicação de multa por condutas vedadas e investigações ainda em andamento sobre possível uso de programas públicos em período eleitoral.
Outro ponto que amplia o debate é o fato de o próprio governador afirmar ter conhecimento de possíveis irregularidades. Pela legislação, agentes públicos devem comunicar formalmente indícios de ilegalidades aos órgãos competentes. A ausência de detalhamento sobre essas declarações levanta questionamentos sobre quais medidas foram adotadas.
O episódio ganha ainda mais relevância pelo fato de Pivetta integrar o comando do governo de Mato Grosso há cerca de sete anos, período em que esteve diretamente ligado à condução administrativa do Estado.
Ao transformar um evento técnico em palco político, reunir críticas generalizadas, omitir pontos relevantes sobre obras públicas e levantar suspeitas sem detalhamento, a participação do governador na Norte Show amplia o ambiente de confronto e intensifica o debate sobre coerência, responsabilidade e transparência na gestão pública.


