Com pagamentos atrasados e prejuízos que chegam a R$ 190 mil, pecuaristas da região de São José dos Quatro Marcos reduziram a produção, renegociaram dívidas e buscam alternativas para manter a atividade enquanto aguardam uma solução para os débitos deixados pelo Laticínio Vencedor.
O fechamento das atividades do Laticínio Vencedor, em São José dos Quatro Marcos, desencadeou uma grave crise para centenas de produtores de leite da região oeste de Mato Grosso. Sem receber pelos últimos meses de produção, muitos pecuaristas precisaram recorrer à venda de animais, renegociar financiamentos bancários e cortar investimentos nas propriedades para conseguir manter a atividade.
Durante mais de duas décadas, a empresa foi uma das principais compradoras da produção leiteira regional, absorvendo cerca de 200 mil litros de leite por dia. Com a paralisação repentina da unidade, aproximadamente 285 produtores ficaram sem o principal canal de comercialização, o que também provocou uma redução no preço pago pelo litro de leite devido à diminuição da concorrência no mercado.
Além da necessidade de buscar novos compradores em curto prazo, os produtores ainda enfrentam a incerteza quanto ao recebimento dos valores pendentes, referentes aos meses de setembro de 2025, janeiro, fevereiro e parte de março de 2026. Segundo representantes do setor, ao menos 18 produtores possuem créditos superiores a R$ 30 mil, enquanto alguns acumulam prejuízos próximos de R$ 190 mil.
Sem capital de giro, diversas propriedades precisaram rever completamente o planejamento financeiro. A venda de animais, inicialmente destinada ao melhoramento do rebanho, tornou-se uma alternativa para garantir recursos e manter despesas básicas da atividade.
A falta de recursos também afetou diretamente a produção. Muitos produtores reduziram os gastos com alimentação do rebanho, diminuíram o fornecimento de ração e silagem e passaram a realizar menos ordenhas diárias, resultando em queda significativa no volume de leite produzido. Em alguns casos, a produção caiu para menos da metade do que era registrado antes da crise.
As dificuldades financeiras também chegaram ao sistema bancário. Com a necessidade de renegociar financiamentos, diversos pecuaristas perderam acesso a novas linhas de crédito, comprometendo investimentos e limitando a capacidade de recuperação das propriedades.
Além dos impactos econômicos, a situação trouxe reflexos emocionais e na saúde de muitos produtores, que relatam preocupação constante com o pagamento de fornecedores, funcionários e demais compromissos financeiros acumulados ao longo dos últimos meses.
Enquanto aguardam uma solução para os débitos, os produtores acompanham a proposta da Prefeitura de São José dos Quatro Marcos para criação de uma cooperativa que possa utilizar a estrutura do antigo laticínio e retomar o beneficiamento da produção local. A iniciativa prevê o aluguel da planta industrial para que a atividade seja reativada sob gestão dos próprios pecuaristas.
Apesar da expectativa em torno da proposta, parte dos produtores demonstra cautela. O principal receio é assumir novos investimentos antes da definição sobre o pagamento dos valores em aberto, já que muitas propriedades ainda enfrentam sérias dificuldades financeiras.
Uma nova reunião está prevista para o fim de julho, quando deverão ser discutidos os próximos passos para a criação da cooperativa e alternativas para reativação da indústria. Paralelamente, representantes dos produtores aguardam um encontro com o novo proprietário da planta industrial para apresentação do levantamento oficial das dívidas e discussão de possíveis formas de quitação.
Até que uma solução seja apresentada, centenas de famílias seguem tentando preservar a atividade leiteira, em um cenário marcado por perdas financeiras, redução da renda e incertezas sobre o futuro de um dos principais setores da economia regional.


