Pesquisas mostram retratos diferentes da disputa, o eleitorado mato-grossense mantém forte identificação com a direita e os dois principais candidatos chegam à reta final enfrentando desafios distintos
Faltam 17 dias para o primeiro turno das eleições de 2026, marcado para 4 de outubro, e a disputa pelo Governo de Mato Grosso entra agora em sua fase mais decisiva.
A partir daqui, cada entrevista, debate, denúncia, agenda ou movimento político pode ganhar peso maior.
E existe um cuidado fundamental: eleição é dinâmica.
Pesquisa mostra a fotografia de um momento. Não determina resultado. Em Mato Grosso, os levantamentos mais recentes, inclusive, apresentam cenários diferentes.
Hoje, a principal disputa está concentrada entre Otaviano Pivetta (Republicanos) e Wellington Fagundes (PL), enquanto Natasha Slhessarenko (PSD) tenta ampliar espaço e interferir na definição de um eventual segundo turno.
O QUE MOSTRAM AS PESQUISAS?
Os dois levantamentos mais recentes ajudam a entender por que ainda é cedo para cravar qualquer tendência definitiva.
O Paraná Pesquisas, divulgado em 9 de setembro, apresentou Pivetta com 40,8%, Wellington com 30% e Natasha com 12%. Foram ouvidos 1.352 eleitores entre os dias 6 e 8 de setembro, com margem de erro de 2,7 pontos percentuais.
Já a AtlasIntel, divulgada poucos dias depois, mostrou Wellington com 34,4%, Pivetta com 30,8% e Natasha com 23,2%. Nesse levantamento, Wellington e Pivetta aparecem tecnicamente empatados dentro da margem de erro de três pontos percentuais.
Em uma eventual disputa de segundo turno, a Atlas registrou 40,4% para Wellington e 36,9% para Pivetta, também dentro da margem de erro.
Os números mostram justamente o tamanho da incerteza.
Há pesquisa colocando Pivetta na frente e outra mostrando Wellington numericamente à frente.
Por isso, o eleitor precisa olhar não apenas para um número isolado, mas para o conjunto dos levantamentos e para o que ainda pode acontecer nestes últimos dias.
DIREITA É A MAIOR IDENTIFICAÇÃO IDEOLÓGICA EM MT
Outro dado ajuda a compreender o ambiente político desta eleição.
Levantamento da Percent Brasil, divulgado nesta semana, apontou que 44,9% dos entrevistados se identificam como de direita.
Outros 15,7% se declararam de esquerda, 10,7% de centro, 19,3% disseram não possuir posicionamento político e 9,5% não souberam ou não responderam.
Esse dado não significa que todos esses eleitores votarão em um mesmo candidato.
Mas ajuda a explicar por que a identificação partidária pode ter peso importante na reta final.
Wellington disputa a eleição pelo PL, partido associado nacionalmente à família Bolsonaro.
Já Pivetta, embora esteja no Republicanos e mantenha discurso conservador em diferentes temas, aposta principalmente na continuidade do grupo político que governou Mato Grosso nos últimos anos.
O DESAFIO DE PIVETTA: CONTINUAR O GOVERNO SEM SER MAURO MENDES
Pivetta possui um ativo evidente nesta campanha: o legado administrativo do grupo de Mauro Mendes.
Obras, infraestrutura, equilíbrio fiscal e investimentos realizados nos últimos anos aparecem como argumentos para defender a continuidade.
Mas existe uma questão política que ganhou importância ao longo da campanha:
Pivetta não é Mauro Mendes.
Isso não é crítica. É uma constatação.
Cada político possui seu próprio estilo de liderança, articulação e relacionamento com aliados.
E alguns episódios desta campanha mostraram diferenças na condução do atual governador.
A própria composição da chapa passou por mudanças. Gisela Simona acabou substituindo Fábio Garcia como candidata a vice de Pivetta em agosto.
O episódio trouxe para o centro da campanha discussões internas de um grupo que, durante boa parte dos últimos anos, demonstrou elevada coesão política.
Agora, Pivetta precisa convencer o eleitor de que consegue manter os resultados que atribui à atual gestão e, ao mesmo tempo, construir sua própria liderança.
RELAÇÃO COM A ASSEMBLEIA VIROU PONTO DE ATENÇÃO
Outro tema que merece observação é a relação de Pivetta com a Assembleia Legislativa.
Em junho, o governador fez críticas públicas ao modelo de emendas parlamentares.
Pivetta afirmou ver o sistema com “muito pessimismo”, disse que não enxergava grandes obras estruturantes resultantes dessas verbas e defendeu uma separação mais rígida de funções: o Executivo executa, enquanto o Legislativo legisla e fiscaliza. Ao criticar o modelo nacional, utilizou a expressão “caldo malcheiroso”.
É importante registrar exatamente o que foi dito.
Pivetta não afirmou que toda emenda parlamentar é ilegal nem que todo parlamentar utiliza mal esses recursos.
Ele criticou o modelo e questionou sua eficiência.
A discussão é relevante porque as emendas são utilizadas por deputados para direcionar recursos a municípios, hospitais, entidades, infraestrutura e outras demandas locais.
Portanto, existe aí uma diferença de visão sobre como parte do orçamento público deve ser executada.
RGA TAMBÉM COLOCOU EXECUTIVO E DEPUTADOS EM DEBATE
A Revisão Geral Anual dos servidores tornou-se outro ponto de divergência política.
Pivetta tem questionado o impacto financeiro de uma eventual recomposição de perdas acumuladas.
Deputados, por outro lado, passaram a defender a possibilidade de negociação e construção de um cronograma.
O tema ganhou ainda mais importância porque Wellington Fagundes assumiu publicamente compromisso de discutir e pagar essas perdas caso seja eleito.
Aqui também é preciso separar posições políticas de fatos.
Não existe apenas uma discussão sobre “pagar ou não pagar”.
Existe uma disputa sobre quanto custaria, qual seria o impacto no orçamento e de que forma eventual pagamento poderia ser feito sem comprometer outras áreas do Estado.
Para servidores e parlamentares, esse debate deve continuar presente nos últimos dias de campanha.
WELLINGTON ENFRENTA UM DESAFIO DIFERENTE
Se Pivetta precisa provar que consegue transformar o legado de Mauro Mendes em liderança própria, Wellington tem outro desafio:
transformar identificação ideológica e força partidária em voto para governador.
O PL possui vantagem simbólica evidente em um Estado em que a direita concentra a maior parcela de identificação ideológica.
Mas a candidatura também passou por ruídos e divergências internas ao longo da campanha.
Apesar disso, Wellington continua aparecendo em posição competitiva nos principais levantamentos.
Isso demonstra que a disputa não pode ser explicada apenas pela estrutura partidária. Também entram nessa conta: a trajetória política do senador; a identificação com o eleitor conservador; o desgaste ou aprovação do governo estadual;
e a capacidade da campanha de apresentar uma alternativa clara ao atual grupo.
O PESO DA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL
Há ainda outro componente.
A disputa presidencial tende a influenciar a eleição estadual.
Em Mato Grosso, parte do eleitorado pode optar por um voto alinhado entre presidente e governador.
Outra parcela pode separar completamente as duas escolhas.
Essa diferença será importante.
Em conversas realizadas pelo MT Urgente News com empresários e pessoas ligadas a diferentes setores, alguns manifestaram desejo de mudança no Governo Federal e afirmaram enxergar a eleição estadual como parte de um reposicionamento político mais amplo.
Mas essa informação precisa ser tratada com responsabilidade:
essas conversas não constituem pesquisa e não representam a opinião de todo o empresariado mato-grossense.
Elas apenas mostram que esse raciocínio existe em parte do ambiente político e econômico ouvido pela reportagem.
O dado mensurável continua sendo o levantamento da Percent, que aponta a direita como o maior grupo de identificação ideológica entre os entrevistados.
NATASHA PODE SER DECISIVA
Natasha não pode ser ignorada nessa equação.
Na AtlasIntel, chegou a 23,2%, percentual significativamente maior que o registrado pelo Paraná Pesquisas, onde aparece com 12%.
Essa diferença entre pesquisas também mostra como ainda existe volatilidade.
O desempenho da candidata pode ser determinante para definir se haverá segundo turno e para onde poderão migrar votos em uma eventual segunda etapa da eleição.
O QUE ESTÁ EM JOGO NESTES 17 DIAS?
Para Pivetta, algumas perguntas ganharão importância:
O eleitor que aprovava Mauro Mendes transferirá essa confiança automaticamente para ele?
Como será sua relação com a Assembleia caso seja eleito para um mandato próprio?
Suas críticas às emendas e sua posição sobre a RGA terão peso entre deputados, servidores e lideranças municipais?
Para Wellington, as perguntas são diferentes:
Até onde o peso do PL e da família Bolsonaro pode ajudá-lo?
Ele conseguirá transformar identificação com a direita em voto para governador?
Sua campanha conseguirá convencer que representa uma mudança sem colocar em risco aquilo que o eleitor considera positivo no Estado?
E para Natasha:
Ela conseguirá crescer o suficiente para romper a polarização entre os dois principais adversários?
ANÁLISE | ALEX RABELO
A principal característica desta eleição, faltando 17 dias, é que nenhum dos principais candidatos conseguiu eliminar as dúvidas existentes sobre sua candidatura.
Pivetta tem a vantagem de representar a continuidade de um governo com obras e uma estrutura política consolidada.
Ao mesmo tempo, os últimos meses deixaram claro que ele possui um estilo próprio e que sua relação com aliados, deputados e diferentes grupos não é simplesmente uma repetição da forma como Mauro Mendes conduzia a política.
As críticas às emendas parlamentares são um exemplo.
O debate sobre a RGA é outro.
A mudança de vice também colocou divergências internas do grupo sob os holofotes.
Nada disso significa que Pivetta tenha perdido capacidade de articulação ou governabilidade.
Significa apenas que ele precisará demonstrar ao eleitor como pretende governar por conta própria.
Wellington, por outro lado, chega à reta final com um ativo importante: concorre pelo partido mais diretamente identificado com o bolsonarismo em um Estado onde 44,9% dos entrevistados pela Percent dizem ser de direita.
Mas isso também não garante votos automaticamente.
O eleitor poderá votar em um candidato presidencial do campo conservador e escolher outro nome para governador.
Por isso, Wellington precisa mostrar um projeto estadual além da identidade partidária.
Essa talvez seja a grande disputa dos próximos 17 dias.
Pivetta quer convencer que a continuidade funciona mesmo com uma liderança diferente de Mauro Mendes.
Wellington quer convencer que o momento é de mudança e que sua trajetória e seu campo político representam essa alternativa.
Natasha tenta mostrar que o eleitor não precisa escolher apenas entre essas duas opções.
E existe uma última variável que nenhuma campanha controla completamente:
o fato novo.
Uma eleição pode mudar rapidamente.
Um debate pode reposicionar candidatos.
Uma denúncia precisa ser apurada antes de produzir conclusões.
Uma proposta pode ganhar repercussão.
Uma declaração mal recebida pode alterar uma semana inteira de campanha.
Por isso, qualquer análise feita hoje precisa trazer uma data implícita:
este é o cenário de 17 de setembro de 2026.
A fotografia pode ser outra daqui a alguns dias.
E a decisão final continuará pertencendo ao eleitor.
E VOCÊ?
Na hora de escolher o próximo governador de Mato Grosso, o que mais vai pesar no seu voto?
Continuidade do atual governo? Mudança? Propostas? Alinhamento político? Experiência? Ou a capacidade de dialogar e construir maioria para governar?
Deixe sua opinião e participe do debate.
Por: Alex Rabelo — jornalista e analista político | MT Urgente News
Fontes: TSE, AtlasIntel, Paraná Pesquisas, Percent Brasil e veículos de imprensa consultados pelo MT Urgente News.