Propostas para reduzir filas, regionalizar atendimentos e ampliar serviços do SUS divergem entre os seis candidatos, mas ainda enfrentam questionamentos sobre recursos, profissionais e prazos
Reduzir as filas por consultas, exames e cirurgias, ampliar a oferta de especialistas no interior e garantir atendimento mais próximo da população estão entre os principais desafios colocados para o próximo governador de Mato Grosso. Em um Estado de grandes distâncias territoriais, pacientes ainda enfrentam deslocamentos de centenas de quilômetros em busca de atendimento especializado, enquanto hospitais e unidades regionais convivem com dificuldades relacionadas à estrutura, pessoal e custeio.
Os seis candidatos ao Governo de Mato Grosso apresentam propostas distintas para enfrentar os gargalos do Sistema Único de Saúde (SUS). Otaviano Pivetta (Republicanos), Wellington Fagundes (PL), Natasha Slhessarenko (PSD), Rafaell Milas (Missão), Maurício Coelho (Mobiliza) e Sargento Laudicério (Agir) defendem, em diferentes níveis, a regionalização da saúde, a modernização da regulação, o uso da tecnologia e a redução do tempo de espera.
A diferença está principalmente na estratégia adotada por cada candidatura. Enquanto Pivetta aposta na continuidade e ampliação da estrutura construída pela atual gestão, Wellington prioriza a utilização da capacidade instalada da rede privada e ferramentas digitais. Natasha concentra o programa no enfrentamento das filas e na valorização dos profissionais, enquanto Milas estabelece metas quantitativas e prazos. Maurício apresenta como uma das principais promessas a eliminação de esperas superiores a 90 dias, e Laudicério prioriza a atenção básica e a descentralização.
Candidato à reeleição, Otaviano Pivetta coloca a expansão da estrutura física como um dos pilares de sua proposta. O plano prevê a conclusão e entrada em funcionamento dos hospitais regionais de Juína, Tangará da Serra e Confresa, além do avanço da segunda etapa do Hospital Central de Cuiabá. Também estão previstos projetos de hospitais ou prontos-socorros em Várzea Grande, Barra do Garças, Rondonópolis e Pontes e Lacerda.
Outra frente apresentada pelo candidato é a criação de oito Centros Regionais de Diagnóstico, previstos para Cáceres, Alta Floresta, Tangará da Serra, Juína, Confresa, Cuiabá, Água Boa e Ribeirão Cascalheira. As unidades deverão ampliar a oferta de exames laboratoriais e de imagem de maior complexidade fora da capital.
Na área de gestão, Pivetta propõe integrar a regulação estadual e municipal por meio do Regula MT, implantar um prontuário único, utilizar WhatsApp e SMS para comunicação com pacientes, ampliar a telessaúde e levar a cobertura móvel de urgência e emergência a todo o Estado até 2028. O programa também prevê ampliar credenciamentos complementares ao SUS e fortalecer os consórcios intermunicipais.
Para Wellington Fagundes, uma das alternativas para acelerar o atendimento é utilizar a capacidade ociosa existente na rede particular. O candidato propõe ampliar a contratação de hospitais e clínicas privadas para a realização de exames e cirurgias, além de criar um sistema integrado de regulação, aplicativo para agendamento e prontuário digital.
A proposta inclui ainda uma central estadual para emissão de laudos, criação de uma rede estadual de transplantes com o Hospital Central como referência, regionalização dos centros de reabilitação, ampliação do atendimento domiciliar e garantia de fornecimento contínuo de medicamentos. Wellington também defende a implantação de hospitais universitários em Sinop e Rondonópolis.
Na área de recursos humanos, o programa prevê dimensionar a força de trabalho e valorizar os profissionais da saúde. A proposta, entretanto, não estabelece uma quantidade específica de concursos ou novas contratações, deixando em aberto a dimensão necessária para suprir a demanda das unidades existentes e das estruturas previstas.
Médica e candidata ao Governo, Natasha Slhessarenko coloca o combate às filas no centro de sua proposta. A candidata defende a criação de uma fila estadual única, pública e auditável para consultas, exames e cirurgias, permitindo ao paciente acompanhar sua posição e ter acesso à estimativa de espera.
Entre as medidas apresentadas estão mutirões regionais para exames e procedimentos eletivos, rodízio de especialistas em unidades de atenção primária e hospitais regionais e ampliação da telessaúde. Natasha também propõe concurso público, plano de carreira para os servidores estaduais do SUS e cumprimento do piso da enfermagem.
O programa prevê ainda a ampliação de serviços de diálise, oncologia, infusão e quimioterapia, além de novos Centros de Atenção Psicossocial do tipo CAPS III. Outra frente seria a realização de auditorias técnicas e contábeis nos contratos da Secretaria de Estado de Saúde. Apesar do detalhamento de várias ações, nem todas apresentam estimativa individualizada de custos ou cronograma anual de execução.
Rafaell Milas também aposta na transparência da regulação e estabelece uma meta de 180 dias para que todas as solicitações reguladas possam ser consultadas digitalmente. A proposta prevê que o cidadão tenha acesso à posição na fila, à previsão de espera e aos critérios de prioridade clínica.
O candidato estabelece ainda a meta de reduzir em 45% o tempo médio de espera para exames de alta complexidade. Entre as demais propostas estão a contratação de especialistas para hospitais regionais, ampliação dos consórcios de saúde, criação de centrais integradas para transporte de pacientes e expansão da cobertura aeromédica nas regiões Norte e Araguaia.
Outra medida apresentada por Milas é vincular os repasses destinados às organizações responsáveis pela administração de unidades públicas ao cumprimento de metas relacionadas a exames, cirurgias, segurança hospitalar e satisfação dos usuários.
Maurício Coelho apresenta uma das metas mais específicas entre os candidatos ao propor zerar as filas de cirurgias eletivas com espera superior a 90 dias. As áreas consideradas prioritárias incluem oftalmologia, ortopedia, ginecologia e urologia.
O candidato também propõe modernizar o Laboratório Central de Mato Grosso, descentralizar postos de coleta, apoiar financeiramente os municípios na recuperação das unidades básicas e ampliar o uso da telessaúde. Outra proposta é a adoção de contratos de desempenho para unidades administradas por organizações sociais.
O programa inclui ainda o chamado Mato Grosso Sem Dor, voltado ao atendimento multidisciplinar de pessoas com dores crônicas, e uma força-tarefa permanente para fiscalizar contratos, compras, estoques e serviços do SUS. Para financiar parte das medidas, Maurício aponta a revisão de benefícios e renúncias fiscais concedidos pelo Estado.
Já Sargento Laudicério concentra a proposta no fortalecimento da atenção básica, na integração entre Estado e municípios e na descentralização da assistência hospitalar. O candidato também defende a ampliação da telessaúde, a transparência das filas e a organização de redes regionalizadas de atendimento.
O plano contempla ações nas áreas de saúde mental, atendimento especializado para pessoas com Transtorno do Espectro Autista, reabilitação de pacientes com dores crônicas e auditoria de contratos, compras, estoques e faturamento da rede pública. A candidatura também propõe realizar um levantamento das principais demandas nos primeiros cem dias de governo e adotar uma gestão orientada por resultados.
Apesar das diferenças, os programas dos seis candidatos convergem em pontos importantes. A redução das filas, a regionalização dos serviços, o uso de ferramentas digitais e a tentativa de diminuir a necessidade de deslocamento dos pacientes aparecem como elementos recorrentes.
O principal desafio, contudo, está na execução. A construção ou ampliação de hospitais não resolve, por si só, a falta de atendimento se não houver médicos, enfermeiros, equipamentos, medicamentos, manutenção e recursos para custear o funcionamento das unidades. Da mesma forma, uma fila digital pode ampliar a transparência, mas não reduz o tempo de espera se a rede não tiver capacidade suficiente para absorver a demanda.
Por isso, além das promessas apresentadas durante a campanha, o eleitor terá de avaliar a viabilidade financeira das propostas, a quantidade de profissionais necessária, as fontes de recursos e os prazos estabelecidos para cada ação. Mais do que anunciar novos hospitais, aplicativos ou mutirões, o próximo governo terá de apresentar condições concretas para garantir que o paciente consiga atendimento especializado perto de casa, em prazo razoável e com qualidade.