Presidente e candidato à reeleição não participará do confronto desta quinta-feira (1º); Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Augusto Cury e Romeu Zema estarão no palco a apenas três dias das urnas
Por: Alex Rabelo | MT Urgente News
A reta final da eleição presidencial ganhou um novo componente político nesta quarta-feira (30).
A apenas três dias do primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) confirmou que não participará do debate presidencial da TV Globo, marcado para esta quinta-feira (1º).
Lula chegou a considerar a participação, mas sua assessoria comunicou à emissora que o presidente ficará fora do último grande confronto televisivo antes da votação.
Estão confirmados Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo).
A ausência ganha ainda mais importância pelo momento da eleição.
Na Quaest divulgada na segunda-feira (28), Lula apareceu com 39%, contra 34% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. No cenário de segundo turno, os dois registraram 42%. A pesquisa ouviu 2.004 eleitores e tem margem de erro de dois pontos percentuais.
Nesta quarta-feira (30), outro levantamento mostrou fotografia diferente. Na Meio/Ideia, Lula registrou 39,4% e Flávio 38,4%, empate técnico. Em eventual segundo turno, apareceram com 48,5% e 48%, respectivamente. A pesquisa ouviu 2.000 eleitores e tem margem de erro de 2,2 pontos. São pesquisas diferentes, realizadas com metodologias próprias, e nenhuma delas permite antecipar o resultado das urnas.
Mas ambas ajudam a dimensionar a importância política dos últimos dias.
É nesse ambiente que Lula decidiu não participar do debate.
Lula não terá que responder aos adversários — mas também não poderá defender seu governo
Essa talvez seja a principal consequência da decisão.
Lula não é apenas um candidato apresentando propostas para os próximos quatro anos.
Ele é o atual presidente e busca a reeleição.
Consequentemente, um debate permitiria aos adversários questioná-lo diretamente sobre economia, segurança, saúde, programas sociais, relações internacionais e outras decisões de seu mandato.
Ao não comparecer, Lula evita os riscos de um confronto ao vivo.
Mas abre mão também da oportunidade de defender pessoalmente seu governo diante das críticas.
Segundo a Folha, aliados do presidente avaliavam que Lula poderia se transformar no principal alvo dos demais candidatos e teria pouco tempo para responder a sucessivos questionamentos. Essa é uma avaliação atribuída a aliados e não uma justificativa oficial apresentada pelo presidente.
Uma cadeira vazia poderá falar por Lula
A ausência não significa que Lula ficará fora do debate.
Pelas regras preparadas pela Globo, os candidatos presentes poderão formular perguntas que fariam ao candidato ausente.
Além disso, o lugar reservado a quem faltar permanecerá vazio e identificado com seu nome. Quando chegar o momento em que o ausente participaria da dinâmica, a emissora prevê destacar o espaço e informar que o candidato não compareceu.
Isso cria uma situação politicamente incomum.
Lula poderá ser questionado sem estar presente para responder.
E, em tempos de redes sociais, a imagem de uma cadeira vazia pode ultrapassar rapidamente os limites da televisão.
Uma pergunta de poucos segundos poderá virar corte para Instagram, TikTok, YouTube e WhatsApp.
Portanto, Lula evita o confronto presencial, mas sua campanha não necessariamente conseguirá controlar a narrativa produzida pela ausência.
Flávio estará no palco — e também assumirá os riscos
Do outro lado está Flávio Bolsonaro.
O candidato do PL também havia evitado debates durante boa parte do primeiro turno. Sua campanha chegou a estabelecer a estratégia de participar de confrontos somente se Lula estivesse presente, para evitar que Flávio se tornasse o principal alvo dos demais candidatos.
Desta vez, porém, Flávio confirmou presença mesmo sem Lula.
Isso produz um contraste objetivo na quinta-feira:
o presidente estará fora; seu principal adversário nas pesquisas estará dentro.
Mas isso não significa automaticamente vantagem para Flávio.
Sem Lula, Caiado, Cury e Zema poderão concentrar maior atenção justamente no candidato do PL.
Flávio terá espaço para criticar o governo sem receber resposta direta de Lula, mas também terá que responder aos demais concorrentes.
Campanha presidencial teve poucos confrontos
A ausência de Lula ganha outro peso porque a eleição presidencial de 2026 já foi marcada por poucos debates.
Até a semana passada, apenas um confronto havia sido realizado, pela Band, em 23 de agosto. Record e outros veículos cancelaram encontros diante da falta de confirmação dos candidatos que lideravam as pesquisas.
Isso significa que o eleitor teve poucas oportunidades de assistir aos principais candidatos respondendo uns aos outros diretamente.
E o debate da Globo seria justamente a última delas antes do primeiro turno.
Agora, Flávio estará.
Lula não.
Estratégia para evitar desgaste
A ausência também pode ser compreendida dentro de uma estratégia de administração de risco.
Segundo relatos publicados pela Folha, aliados de Lula consideravam que o presidente poderia receber ataques sucessivos e preferiam postergar um eventual confronto direto com Flávio para um segundo turno, caso essa etapa da eleição aconteça.
Isso ajuda a explicar o cálculo político.
Se uma campanha entende que seu candidato possui pouco a ganhar e muito a perder em determinado evento, pode optar por reduzir exposição.
O problema é que existe uma segunda conta:
o custo da ausência.
E esse custo será testado justamente quando faltam poucos dias para a votação.
ANÁLISE | Alex Rabelo — jornalista e estrategista em marketing político
A decisão de Lula precisa ser observada além da simples discussão sobre “ir ou não ir” ao debate.
Em marketing político, toda escolha comunica. A presença comunica segurança para enfrentar o contraditório; a ausência pode ser apresentada pela campanha como estratégia de redução de risco, mas também abre espaço para que adversários construam sua própria interpretação.
E o momento torna essa decisão ainda mais relevante. Lula busca a reeleição e pesquisas recentes mostram uma disputa competitiva. A Quaest registrou 39% a 34% para Lula sobre Flávio no primeiro turno, enquanto a Meio/Ideia divulgada nesta quarta apontou 39,4% a 38,4%, empate técnico.
Isso significa que estamos falando dos últimos dias de uma eleição ainda disputada, não de uma campanha sem adversário competitivo.
Do ponto de vista estratégico, é possível compreender o cálculo: um debate ao vivo é risco. Não existe edição, segunda gravação ou possibilidade de apagar uma resposta ruim. Lula poderia ser alvo de vários adversários simultaneamente. Uma frase equivocada, uma reação ruim ou uma resposta insuficiente poderia dominar as redes sociais justamente nas últimas 72 horas da campanha.
Mas existe o outro lado.
Quem quer governar precisa estar preparado para debater, ouvir, responder e se posicionar.
E Lula possui uma responsabilidade adicional: não é apenas candidato, é presidente. Portanto, o debate seria também uma oportunidade para defender aquilo que fez, responder às críticas e explicar por que entende que merece mais um mandato.
A cadeira vazia poderá evitar uma resposta ruim, mas também poderá produzir uma imagem difícil de controlar. E, enquanto Lula não estará sujeito às perguntas, Flávio Bolsonaro estará no palco assumindo os riscos de responder a Caiado, Cury e Zema.
Não é possível afirmar antecipadamente se a estratégia ajudará ou prejudicará Lula eleitoralmente. As pesquisas não permitem prever esse efeito, e a decisão do eleitor envolve muitos outros fatores.
Mas, como jornalista e estrategista em marketing político, considero que a principal disputa desta quinta-feira talvez não esteja apenas entre quem estará no palco. Estará também na interpretação que milhões de brasileiros farão de quem decidiu não estar.
E a pergunta que permanecerá depois do debate é simples:
a poucos dias das urnas, o eleitor verá a ausência de Lula como uma decisão estratégica de campanha ou sentirá falta de ver o presidente defendendo seu governo frente a frente com seus adversários?
Essa resposta não pertence aos marqueteiros, aos candidatos ou aos jornalistas.
Pertence ao eleitor.
Alex Rabelo
Jornalista e estrategista em marketing político
MT Urgente News