Acordamos com o celular vibrando. Mensagens, prazos, cobranças, notificações. Antes mesmo do café, o dia já começou atrasado. A sensação é de que estamos sempre devendo algo a alguém ou a algum sistema invisível que nunca se satisfaz.
A ansiedade deixou de ser exceção. Virou regra. E o mais curioso é que quase ninguém percebeu.
Vivemos em um tempo em que tudo é urgente. Respostas imediatas, soluções rápidas, decisões instantâneas. Se algo demora, incomoda. Se exige paciência, irrita. Se pede tempo, parece erro. Mas o ser humano não foi feito para viver em alerta permanente.
No meio disso tudo está o cidadão comum, tentando dar conta da própria vida e, ao mesmo tempo, lidar com instituições que exigem documentos, senhas, cadastros, filas, protocolos e prazos que não se explicam. É banco, é plano de saúde, é previdência, é escola, é poder público. Tudo cobra. Pouco escuta.
O problema é que essa lógica não afeta apenas a rotina. Ela afeta a saúde emocional. Afeta relações familiares. Afeta a forma como as pessoas enxergam o Estado, o Direito e até a si mesmas. Muitos começam a achar que estão falhando, quando na verdade estão apenas sobrecarregados.
O Direito, que deveria ser instrumento de equilíbrio social, muitas vezes acaba reforçando essa pressão. Processos que demoram, decisões que não vêm, respostas automáticas que não resolvem. O cidadão se sente pequeno diante de sistemas grandes, frios e distantes.
E aqui está um ponto importante: ansiedade não é fraqueza. Não é falta de fé. Não é incapacidade emocional. Em muitos casos, é consequência direta de um modelo que exige demais e acolhe de menos.
Vivemos conectados o tempo todo, mas raramente somos ouvidos. Somos informados, mas não explicados. Somos cobrados, mas não compreendidos. Esse ambiente produz angústia, insegurança e uma sensação constante de insuficiência.
É preciso repensar a forma como o Estado, as instituições e até o próprio Direito se relacionam com as pessoas. Humanizar procedimentos não é flexibilizar a lei. É aplicar a lei com sensibilidade. É lembrar que por trás de cada processo existe alguém tentando apenas viver com dignidade.
Simplificar não é enfraquecer. Agilizar não é perder segurança. Escutar não é abrir mão da autoridade. Pelo contrário. Um sistema que respeita o tempo humano é mais justo, mais eficiente e mais legítimo.
Enquanto tratarmos a ansiedade como um problema individual, continuaremos errando o diagnóstico. Ela é, muitas vezes, um sintoma coletivo. Um sinal de que algo no ritmo da sociedade precisa ser revisto.
Talvez não seja o cidadão que esteja lento demais. Talvez seja o mundo que esteja rápido demais. E reconhecer isso já é um começo.
Diogo Fernandes
Colunista em Justiça & Sociedade, MT Urgente News
Advogado, fundador do escritório Diogo Fernandes Advocacia


