Prefeito admite preocupação com eventual vitória de Ilde Taques; dificuldade para manter Paula Calil no comando muda correlação de forças no Legislativo cuiabano
A disputa pelo comando da Câmara Municipal de Cuiabá ganhou novos contornos e começa a expor uma dificuldade política para o prefeito Abilio Brunini (PL).
Nesta quarta-feira (16), Abilio voltou a demonstrar preocupação com uma eventual vitória do vereador Ilde Taques (Podemos) na eleição da próxima Mesa Diretora. O prefeito afirmou que não considera Ilde, isoladamente, uma ameaça, mas classificou como problemático o grupo político que sustenta sua candidatura.
“Não acredito que seja ele a ameaça. O grupo que está com ele é um problema, porque é um grupo de oposição”, declarou Abilio.
Na sequência, o prefeito reforçou a avaliação:
“Um grupo de oposição tomando a presidência da Câmara é um prejuízo para a nossa gestão, com certeza.”
A declaração mostra que a eleição da Mesa deixou de ser apenas uma disputa interna do Legislativo e passou a representar uma preocupação direta para o Palácio Alencastro.
Revés no TJMT dificultou plano governista
O principal problema para o grupo de Abilio está na tentativa de manter a atual presidente da Câmara, Paula Calil (PL), no comando da Casa.
O Tribunal de Justiça de Mato Grosso manteve a exigência de dois terços dos votos dos vereadores para alterações no Regimento Interno. Na prática, são necessários 18 dos 27 votos para modificar a regra que atualmente impede a recondução consecutiva ao mesmo cargo da Mesa Diretora.
O Órgão Especial do TJMT também formou maioria contra a liminar buscada pela Prefeitura. Reportagem recente registrou placar de 11 a 0 pela manutenção da rejeição do pedido.
Com isso, a candidatura de Paula continua cercada de incerteza jurídica.
Aliados trabalham com a possibilidade de ela disputar sub judice e afirmam contar atualmente com 13 votos, tentando chegar ao 14º apoio.
Ilde cresce no espaço aberto pela indefinição
É nesse cenário que a candidatura de Ilde Taques passa a ganhar maior importância.
Com Paula enfrentando um obstáculo jurídico e o grupo governista ainda buscando consolidar maioria, o bloco independente e de oposição encontrou espaço para ampliar articulações.
Abilio reconhece publicamente que uma vitória desse grupo mudaria a relação política entre Executivo e Legislativo.
A fala do prefeito, portanto, reforça a percepção de que a eleição da Mesa pode alterar a correlação de forças dentro da Câmara.
Contradição sobre interferência também pesa
Outro elemento entrou nessa disputa nesta semana.
O vereador Kassio Coelho (Podemos) afirmou ter conversado diretamente com Abilio sobre a eleição e declarou que o grupo iria “montar uma estratégia” para o processo.
A declaração chamou atenção porque Abilio vinha afirmando publicamente que não pretendia interferir diretamente na escolha da Mesa.
Agora, além das articulações reveladas por Kassio, o próprio prefeito admite que pretende apoiar a permanência de Paula e reconhece preocupação com uma eventual vitória da oposição.
Isso aumenta o peso político da disputa e coloca o Executivo ainda mais próximo do processo.
Plano B já aparece nos bastidores
Diante da dificuldade para viabilizar Paula, nomes alternativos passaram a circular entre os governistas.
Kassio Coelho, Kero Kero, Marcus Brito Jr. e Eduardo Magalhães aparecem nas articulações como possíveis alternativas, caso a atual presidente não consiga permanecer na corrida.
Ao mesmo tempo, Ilde Taques mantém sua candidatura, enquanto Dilemário Alencar (União Brasil) também se coloca na disputa.
O cenário, portanto, permanece aberto.
Abilio está perdendo força?
Ainda é cedo para afirmar que o prefeito perdeu o controle político da Câmara.
Abilio continua contando com uma base relevante e seus aliados afirmam possuir 13 votos.
Mas é possível dizer que o cenário ficou mais difícil.
O grupo governista sofreu um revés no Judiciário, sua principal candidata enfrenta obstáculos para disputar novamente e a oposição passou a ocupar um espaço político que antes parecia mais restrito.
Mais do que uma derrota consolidada, o que aparece neste momento é uma redução da margem de conforto do prefeito dentro da Câmara.
ANÁLISE | Alex Rabelo — jornalista e estrategista em marketing político
A eleição da Mesa Diretora pode se transformar em um dos primeiros grandes testes políticos da gestão Abilio Brunini.
Até agora, o prefeito vinha construindo uma imagem de força e capacidade de articulação dentro do Legislativo. O problema é que a disputa pela presidência começa a mostrar que essa base não é completamente homogênea.
O revés no TJMT é importante porque retirou do grupo governista uma solução que poderia simplificar o processo: manter Paula Calil no comando com uma alteração regimental.
Sem essa saída, a disputa volta para a matemática política.
E matemática na Câmara significa voto por voto.
Se o grupo de Abilio realmente possui 13 vereadores, está muito perto da maioria, mas ainda não chegou lá.
É justamente essa diferença que abre espaço para Ilde Taques e para os demais grupos.
Outro aspecto importante é o discurso.
Quando o próprio prefeito afirma que uma vitória do grupo de oposição seria “prejuízo” para sua administração, ele reconhece publicamente o peso político da eleição.
Isso também aumenta a responsabilidade sobre o resultado.
Se um nome ligado ao bloco independente ou oposicionista vencer, a leitura política será inevitável: Abilio terá perdido uma disputa considerada estratégica para a governabilidade.
Se conseguir manter um aliado no comando, mostrará capacidade de reorganizar sua base mesmo depois de um revés judicial.
Por isso, o que está em jogo não é apenas quem ocupará a presidência da Câmara.
Está em jogo quem demonstra maior capacidade de articulação política dentro do Legislativo de Cuiabá.
E, neste momento, a oposição percebe que existe espaço para disputar.
A eleição da Mesa ainda está aberta, mas uma coisa já mudou: o grupo de Abilio deixou de aparentar domínio absoluto do cenário.
A pergunta agora é:
o prefeito conseguirá recompor sua base e manter o comando da Câmara próximo ao Executivo, ou essa disputa marcará o início de uma oposição mais forte em Cuiabá?
Por: Alex Rabelo — jornalista e estrategista político | MT Urgente News