Em dia de jogo da Seleção, algo muda no ar. A rua ganha cor, a camisa amarela aparece, o assunto é um só. Pessoas que nunca se falaram comentam o lance, reclamam do juiz, comemoram o gol. Por alguns instantes, somos todos do mesmo lado.
A Copa do Mundo tem esse efeito curioso. Ela nos lembra que, apesar das diferenças, ainda sabemos nos unir.
Mas basta o apito final para tudo voltar ao normal. As divisões reaparecem. A pressa retorna. A intolerância ocupa o espaço da conversa. E o outro, que minutos antes vibrava ao nosso lado, volta a ser visto como obstáculo, problema ou adversário.
Isso diz muito sobre nós.
Durante a Copa, aprendemos a esperar juntos. Esperamos o jogo começar, a bola entrar, o resultado final. Ninguém acha estranho. Ninguém reclama do tempo. Pelo contrário, a espera faz parte da emoção. Faz parte do sentido daquele momento.
Fora da Copa, esperar virou algo quase insuportável.
Não esperamos na fila. Não esperamos resposta. Não esperamos o tempo do outro. Queremos tudo rápido, imediato, resolvido. A convivência fica difícil quando ninguém aceita o ritmo alheio.
O Direito sente isso todos os dias. O cidadão cobra rapidez, o sistema responde lentamente. O sistema exige cumprimento imediato, o cidadão não consegue acompanhar. Falta diálogo, sobra frustração. E, no meio disso, cresce a sensação de que estamos sempre em lados opostos.
Mas a Copa mostra que não precisa ser assim.
Ela prova que sabemos conviver, mesmo discordando. Que sabemos respeitar regras, mesmo quando não gostamos delas. Que sabemos esperar, quando entendemos o motivo da espera. Que sabemos torcer juntos, mesmo sendo diferentes em quase tudo.
Talvez o problema não seja a falta de união. Talvez seja o esquecimento rápido dela.
Se conseguimos ser um só por noventa minutos, por que não conseguimos ser um pouco mais pacientes no dia a dia? Por que não conseguimos ouvir mais, respeitar mais, esperar mais?
O Brasil que aparece na Copa também é real. Ele existe. Ele só anda escondido na correria, no excesso de cobrança, na falta de empatia.
Quem sabe o maior aprendizado desse clima não esteja no resultado do jogo, mas no que fazemos quando ele termina. Se voltamos a nos dividir ou se levamos um pouco dessa convivência para fora do estádio, da tela e da comemoração.
Na Copa, somos um só. O desafio é continuar sendo, quando a bola para de rolar.
Diogo Fernandes
Colunista em Justiça & Sociedade, MT Urgente News
Advogado, fundador do escritório Diogo Fernandes Advocacia


