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Portão do Inferno: milhões já foram gastos, projeto foi abandonado e solução definitiva continua sem sair do papel

Problema na MT-251 se arrasta desde 2023. Estado começou obra de quase R$ 30 milhões, executou cerca de 26% do serviço, abandonou o projeto e agora aposta em túnel estimado em R$ 72,5 milhões, que ainda depende de nova contratação e licenciamento ambiental.

O problema do Portão do Inferno, na MT-251, entre Cuiabá e Chapada dos Guimarães, já atravessou anos, mudanças de projeto, interdições, licenciamento ambiental, disputas técnicas e milhões de reais em investimentos.

Mesmo assim, para quem utiliza a rodovia, a principal pergunta continua praticamente a mesma:

quando haverá uma solução definitiva para o trecho?

Nos últimos dias, o governador Otaviano Pivetta (Republicanos) voltou a cobrar o Ibama e classificou a demora para a liberação das intervenções como um “castigo” para moradores de Chapada dos Guimarães e usuários da MT-251.

Mas a história do Portão do Inferno é mais longa e complexa do que a atual espera por uma licença ambiental.

Antes do projeto do túnel, o Governo de Mato Grosso já havia contratado, iniciado e pago parte de outra obra no mesmo trecho.

Essa primeira solução acabou sendo abandonada.

Tudo começou a se agravar no fim de 2023

Os problemas ganharam maior dimensão em dezembro de 2023, quando deslizamentos e desprendimentos de blocos rochosos aumentaram o risco para motoristas que utilizam a MT-251.

O próprio estudo técnico da Sinfra apontava uma situação considerada potencialmente grave no maciço rochoso do Portão do Inferno, com risco à segurança de quem passava pela rodovia.

Desde então, moradores de Chapada, empresários, trabalhadores e turistas passaram a conviver com restrições, interdições e incertezas no principal acesso entre a Capital e um dos maiores destinos turísticos de Mato Grosso.

Primeira solução custaria R$ 29,5 milhões

Em março de 2024, o Governo do Estado decidiu contratar emergencialmente a empresa Lotufo Engenharia e Construções para executar intervenções no Portão do Inferno.

O contrato inicial foi firmado por aproximadamente:

R$ 29,58 milhões.

A contratação ocorreu por dispensa de licitação e previa, entre outros serviços, o chamado retaludamento do paredão.

De maneira simples, o plano previa cortar e modificar parte da encosta, afastando a nova pista da área considerada mais perigosa.

Naquele momento, essa foi apresentada como a solução escolhida pelo Estado para enfrentar o problema.

Ibama chegou a autorizar o primeiro projeto

Um ponto importante para entender a atual discussão é que a primeira solução chegou a obter autorização ambiental federal.

O projeto de retaludamento recebeu do Ibama a Licença de Instalação nº 1.489/2024, em junho de 2024.

A obra efetivamente começou em 26 de agosto de 2024.

Máquinas entraram na região, vegetação foi retirada, terraplanagem foi executada e parte da intervenção saiu do papel.

Portanto, não se tratou apenas de um projeto anunciado.

Houve execução física e utilização de recursos públicos.

Aproximadamente R$ 9,3 milhões foram pagos

Quando o Governo decidiu abandonar o retaludamento, aproximadamente 26,42% dos serviços previstos haviam sido executados.

Os pagamentos realizados à empresa chegaram a aproximadamente:

R$ 9,38 milhões

Os números foram atribuídos à própria Sinfra quando a paralisação do projeto veio a público.

Reportagens da época também apontaram que, com alterações e aditivos, o valor contratual relacionado ao projeto havia aumentado em relação aos R$ 29,5 milhões inicialmente previstos.

Ou seja, milhões de reais foram aplicados em uma solução que não seria concluída.

Governo reconheceu que projeto não era mais viável

Imagens aéreas mostram o andamento da obra de retaludamento na MT-251 - Notícias de Chapada

Em junho de 2025 ocorreu uma mudança decisiva.

Depois de meses de obras, novos levantamentos levaram o Governo de Mato Grosso a abandonar a proposta de retaludamento.

A própria administração estadual reconheceu problemas nos estudos que haviam embasado a intervenção e concluiu que continuar com aquela solução não seria tecnicamente adequado.

Assim, a obra que havia começado em agosto de 2024 foi interrompida.

Foi então apresentada uma nova alternativa:

construir um túnel.

Na prática, Mato Grosso voltou à etapa de buscar outra solução definitiva para o mesmo problema.

Túnel passa a ser a nova promessa de solução

A Sinfra passou então a trabalhar com a construção de um túnel em pista dupla, com acostamento e pavimentação de concreto.

Documentos oficiais da secretaria confirmam que a nova concepção substituiu o projeto de retaludamento.

A intervenção completa deverá alcançar aproximadamente 513 metros, incluindo túnel e acessos.

O túnel propriamente dito terá cerca de 170 metros.

O valor estimado atualmente para a nova solução é de aproximadamente:

R$ 72,5 milhões

Portanto, além dos aproximadamente R$ 9,3 milhões já pagos na solução anterior, o Estado passou a trabalhar com um novo empreendimento estimado em mais de R$ 72 milhões.

Isso não significa, entretanto, que os dois valores devam simplesmente ser somados como se todo o dinheiro já tivesse sido gasto.

Os R$ 72,5 milhões são uma estimativa para a nova obra, enquanto os cerca de R$ 9,3 milhões correspondem a pagamentos já realizados no projeto anterior.

Essa diferença precisa ficar clara.

Primeira licitação para o túnel fracassou

Outro capítulo da história ocorreu em 2026.

O Governo abriu licitação para contratar a empresa responsável pelo projeto e execução do túnel.

Apenas um grupo apresentou proposta: o Consórcio TB-ETEL.

O consórcio, porém, foi inabilitado por não atender requisitos econômico-financeiros previstos no edital.

Com isso, em maio de 2026, a licitação foi declarada fracassada.

Não houve empresa vencedora.

A Sinfra informou então que revisaria os dados técnicos para abrir um novo processo de contratação.

Anteprojeto foi revisto e aprovado

Em julho deste ano, a Sinfra aprovou uma nova versão do anteprojeto.

O documento manteve a solução do túnel e estabeleceu o valor de referência em aproximadamente R$ 72,5 milhões.

Porém, aprovação de anteprojeto não significa obra iniciada.

Ainda existem etapas para que máquinas efetivamente comecem a construir o túnel.

Entre elas estão contratação e licenciamento ambiental.

E onde entra o Ibama?

É justamente aqui que começa a atual disputa.

Como a intervenção ocorre dentro de uma área ambientalmente sensível e relacionada ao Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, o processo passou pela esfera federal.

Em julho, o Ibama assumiu a responsabilidade pelo licenciamento ambiental das intervenções no trecho.

O Governo afirma que aguarda a autorização necessária para iniciar a nova obra.

O secretário de Infraestrutura, Marcelo Oliveira, chegou a declarar em julho que sem o licenciamento do Ibama o Estado não teria condições de começar o túnel.

É importante separar túnel de duplicação

Existe um ponto que merece atenção para evitar confusão.

O ICMBio apresentou parecer contrário à duplicação da MT-251 no trecho dentro do Parque Nacional.

Esse posicionamento foi divulgado em agosto.

Já o projeto específico do túnel continua sendo tratado em processo próprio e, segundo informações divulgadas pela própria Sinfra, ainda aguarda definição dos órgãos ambientais.

Portanto, dizer simplesmente que “o ICMBio proibiu o túnel” não explica corretamente todas as etapas do processo.

Há discussões relacionadas tanto à duplicação da rodovia quanto à construção do túnel, e elas precisam ser diferenciadas.

Pivetta culpa demora federal

Nesta semana, Otaviano Pivetta voltou a aumentar o tom contra o licenciamento federal.

Segundo ele, a demora é desnecessária e prejudica moradores e usuários da rodovia.

O governador afirmou que o Estado já teria condições de executar a intervenção caso obtivesse a autorização ambiental.

A cobrança é legítima dentro do debate político e administrativo.

Mas ela explica apenas o capítulo atual.

Porque o problema do Portão do Inferno não começou com o novo pedido de licença.

Antes da licença atual, houve uma obra que foi abandonada

Essa é uma das questões centrais da história.

O Estado já havia:

contratado uma solução;

obtido licença para essa solução;

iniciado a obra;

executado aproximadamente 26% dos serviços;

pago cerca de R$ 9,3 milhões;

e, posteriormente,

concluído que aquela solução não deveria continuar.

Só depois disso foi escolhido o túnel.

Portanto, o atraso atual não pode ser explicado exclusivamente pelo tempo de análise do Ibama.

Existe uma sucessão de decisões técnicas, ambientais e administrativas desde 2023.

Os números até agora

Para facilitar a compreensão:

Primeiro projeto – retaludamento

Contrato inicial: R$ 29,58 milhões

Executado: cerca de 26,42%

Pago: aproximadamente R$ 9,38 milhões

Situação: projeto abandonado

Nova solução – túnel

Valor estimado: aproximadamente R$ 72,5 milhões

Extensão total da intervenção: cerca de 513 metros

Túnel: aproximadamente 170 metros

Primeira licitação: fracassou

Situação atual: projeto depende de novas etapas de contratação e licenciamento ambiental

O que existe hoje no local?

Apesar de ainda não existir a solução definitiva, algumas intervenções de segurança foram feitas ao longo desse período.

Segundo a Sinfra, foram instaladas barreiras para contenção de queda de rochas, realizadas retiradas de blocos considerados instáveis e implantado monitoramento do trecho. Também ocorreram restrições de circulação em momentos considerados de maior risco.

Essas ações, porém, são medidas de segurança e contenção.

Não representam a conclusão da solução definitiva prometida para o Portão do Inferno.

Anos depois, a pergunta continua

Entre dezembro de 2023 e agosto de 2026, o problema passou por:

interdições;

estudos geológicos;

contratação emergencial;

licença ambiental;

início de obra;

milhões em pagamentos;

abandono do primeiro projeto;

escolha de um túnel;

licitação sem vencedor;

revisão do anteprojeto;

e agora,

uma nova discussão sobre licenciamento ambiental.

É por isso que reduzir toda a situação a uma disputa entre Governo de Mato Grosso e Ibama não é suficiente para explicar ao cidadão o que realmente aconteceu.

Os órgãos ambientais precisam dar respostas dentro dos prazos e com fundamentação técnica.

Mas também cabe ao Estado explicar por que uma solução que recebeu licença, foi contratada e consumiu milhões de reais acabou sendo descartada depois de já estar em execução.

Quem mais espera é a população

Enquanto Governo do Estado, Ibama e ICMBio discutem projetos, licenças e responsabilidades, quem utiliza a rodovia continua convivendo com a incerteza.

Chapada dos Guimarães depende fortemente da MT-251 para turismo, comércio, serviços e deslocamento de moradores.

O que a população espera agora não é apenas mais um anúncio.

É uma resposta objetiva:

qual será a obra definitiva, quanto ela efetivamente custará, quando será contratada e quando ficará pronta?

Depois de anos de discussões e milhões de reais envolvidos, o Portão do Inferno continua sendo um dos principais exemplos de uma obra pública em Mato Grosso que já passou por várias soluções no papel, mas ainda não entregou a solução definitiva prometida à população.

Fonte: Gazeta Digital, Sinfra-MT, documentos oficiais do Governo de Mato Grosso e reportagens sobre o processo de licenciamento e execução das obras.

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Alex Rabelo de Araújo
Jornalista — DRT 3336

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