Globo cancelou encontro após decisões sobre ausência de Lula e participação de Renan Santos; candidatos que estavam preparados para o debate lamentaram e fizeram críticas ao Judiciário
Por: Alex Rabelo — jornalista e estrategista em marketing político | MT Urgente News
Quem perdeu com o cancelamento do último grande debate presidencial? Independentemente de preferência política, uma consequência é objetiva: o eleitor deixou de assistir a um confronto direto entre candidatos a poucos dias de ir às urnas.
A TV Globo cancelou, na noite desta quinta-feira (1º), o debate entre candidatos à Presidência da República depois de receber decisões judiciais que alteraram, poucas horas antes do programa, regras que haviam sido estabelecidas para o encontro.
Uma decisão da ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), proibiu a emissora de manter no cenário o púlpito vazio identificado com o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que havia decidido não participar. A determinação também impediu que os candidatos presentes formulassem as perguntas que fariam ao ausente.
Outra decisão, desta vez do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a inclusão de Renan Santos (Missão) no debate. A determinação foi proferida horas antes do encontro.
Diante das mudanças de última hora, a Globo decidiu cancelar o programa.
O QUE MUDOU HORAS ANTES DO DEBATE
A ausência de Lula já estava prevista nas regras acordadas para o programa.
Pelo formato estabelecido anteriormente, caso um candidato convidado não comparecesse, seu púlpito permaneceria vazio e identificado no cenário. Também estava prevista uma rodada em que os participantes poderiam formular perguntas ao candidato ausente.
A ministra Estela Aranha acolheu pedido da coligação de Lula e impediu a aplicação dessa parte das regras. A magistrada considerou que a ausência voluntária não poderia resultar em medidas de caráter coercitivo contra o candidato que decidisse não comparecer.
A segunda mudança ocorreu em relação a Renan Santos.
A Globo havia definido os convidados observando os critérios de representação parlamentar estabelecidos para os debates. Uma decisão anterior do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, já havia alterado o entendimento sobre essa contagem e garantido a participação de Romeu Zema (Novo).
Na quinta-feira, Gilmar Mendes determinou também a participação de Renan Santos.
A sucessão de decisões ocorreu poucas horas antes do horário previsto para o início do programa.
CANDIDATOS REAGEM
Os candidatos que estavam preparados para participar reagiram ao cancelamento.
Augusto Cury (Avante) destacou a importância dos debates para que a população conheça as ideias dos candidatos.
Flávio Bolsonaro (PL) criticou a insegurança jurídica e afirmou que milhões de brasileiros aguardavam o encontro para comparar propostas antes da votação.
Romeu Zema (Novo) criticou a alteração das regras por decisões judiciais de última hora.
Ronaldo Caiado (PSD) também questionou a interferência judicial e afirmou que as regras haviam sido previamente acertadas pelos partidos.
As críticas à atuação do Judiciário representam as posições dos próprios candidatos e não uma conclusão sobre a legalidade ou motivação das decisões.
ENTIDADES DE IMPRENSA TAMBÉM CRITICAM
A reação não ficou restrita aos presidenciáveis.
A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), a Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) divulgaram manifestação conjunta criticando a intervenção judicial nas regras previamente definidas para o debate.
Segundo as entidades, as decisões atingiram a autonomia da emissora para conduzir um programa cujas condições haviam sido negociadas previamente com os partidos.
A manifestação representa o posicionamento das três entidades; as decisões judiciais, por outro lado, foram tomadas em resposta a questionamentos apresentados às Cortes.
E QUEM PERDE COM O CANCELAMENTO?
Além da discussão jurídica, existe uma consequência prática para a eleição.
O debate não aconteceu.
E quinta-feira era justamente o último dia previsto no calendário eleitoral para a realização de debates no rádio e na televisão antes do primeiro turno.
Isso significa que o eleitor perdeu uma das últimas oportunidades de assistir, simultaneamente, a candidatos respondendo perguntas, apresentando propostas, sendo questionados pelos adversários e reagindo ao contraditório.
Debates têm uma característica diferente de entrevistas, propagandas eleitorais e vídeos publicados nas redes sociais: colocam os candidatos diante uns dos outros e permitem ao público observar diretamente o conteúdo das propostas, as respostas aos questionamentos e as divergências entre os projetos apresentados.
Não cabe à imprensa determinar se uma decisão judicial foi politicamente boa ou ruim para determinado candidato.
Mas é possível registrar uma consequência objetiva: sem o debate, houve uma oportunidade a menos para o eleitor comparar diretamente os presidenciáveis antes de votar.
DECISÕES JUDICIAIS DOMINARAM A NOITE QUE SERIA DE PROPOSTAS
O episódio também produziu uma situação incomum na reta final da eleição.
A noite que seria dedicada ao confronto de propostas acabou dominada por discussões sobre regras eleitorais, decisões judiciais e os limites de participação dos candidatos nos debates.
A decisão envolvendo Lula discutia como a emissora poderia representar a ausência de um candidato.
A decisão envolvendo Renan Santos discutia quem teria direito de participar.
E, no final, nenhuma dessas discussões chegou ao palco porque o próprio debate foi cancelado.
O resultado é que os candidatos não tiveram o confronto previsto — e milhões de eleitores não puderam assistir ao encontro.
A três dias da votação, permanece uma questão que vai além dos interesses de qualquer candidato:
em uma eleição para presidente da República, quanto mais oportunidades o eleitor tiver para ouvir propostas, acompanhar questionamentos e conhecer as diferenças entre os candidatos, mais informações terá para formar sua própria decisão.
Nesta quinta-feira, essa oportunidade não aconteceu.
Por: Alex Rabelo — jornalista e estrategista em marketing político | MT Urgente News