O que inicialmente parecia ser apenas mais uma reclamação regional sobre condições de uma rodovia ganhou dimensão estadual e abriu um dos debates mais sensíveis sobre infraestrutura em Mato Grosso.
Uma reunião provocada por vereadores dos municípios atendidos pela MT-170 levou ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT) denúncias e relatos sobre a situação atual da rodovia, colocando em discussão qualidade da obra, segurança para a população, impacto econômico e responsabilidade sobre decisões tomadas ao longo dos últimos anos.
Participaram do encontro o presidente do TCE, conselheiro Sérgio Ricardo, o senador Wellington Fagundes, o primeiro-secretário da Assembleia Legislativa, Dr. João, o deputado federal Emanuelzinho Pinheiro, vereadores da região e representantes técnicos.
E um ponto precisa ficar claro: o senador Wellington não convocou a reunião.
Segundo o que foi apresentado, Wellington participou a convite do Tribunal de Contas e dos vereadores, que buscaram ampliar a discussão diante dos relatos levados pela população da região.
O que levou os vereadores ao Tribunal
A mobilização dos vereadores nasceu porque o tema deixou de ser apenas técnico.
Nos relatos apresentados durante o encontro, o problema passou a atingir diretamente quem vive na região.
Foram apontadas preocupações relacionadas a :
segurança de motoristas;
deslocamento de pacientes;
aumento do custo de produtos;
prejuízos econômicos;
dificuldades logísticas;
risco para ambulâncias e transporte regional.
O sentimento levado ao TCE foi resumido por uma pergunta que apareceu de forma indireta durante toda a reunião:
Como uma obra aguardada por tantos anos passou tão cedo a gerar preocupação em vez de tranquilidade?
Vereadores fizeram relatos fortes sobre a realidade da estrada
O vereador Oseias Pereira Guedes, de Colniza, fez uma das falas mais contundentes.
Segundo ele, o que era visto como sonho regional passou a gerar preocupação.
“Estão acontecendo mortes. Queremos qualidade na pavimentação asfáltica de Castanheira a Colniza. Esse é o sonho da nossa região”, afirmou.
O presidente da Câmara de Cotriguaçu, Fich Vaz, chamou atenção para o impacto econômico.
“Os produtos chegam mais caros por causa dessas estradas, que não estão em boa qualidade. Além disso, nessa MT, todo dia, tem ambulância para o hospital correndo risco, porque nosso polo de saúde é Juína”, declarou.
Também de Cotriguaçu, o vereador Vanilton de Paula Silva reforçou o impacto humano.
“Temos que deslocar ambulância até Juína. É muito difícil, o paciente sofrendo ali numa maca. É incalculável o sofrimento que enfrentamos por causa dessa rodovia”, relatou.
Wellington elevou o debate ao apontar erro na estadualização
Durante a reunião, Wellington Fagundes fez uma declaração que ampliou a repercussão do encontro.
O senador afirmou que considera que a estadualização da rodovia foi um erro e que o cenário atual exige explicações.
A fala ganhou repercussão porque ocorreu dentro de uma discussão que tinha como foco justamente entender por que um investimento esperado pela região passou a ser alvo de questionamentos.
O que também chamou atenção: reação imediata de Mauro Mendes
Poucas horas depois da reunião, o ex-governador Mauro Mendes publicou um vídeo em suas redes sociais respondendo diretamente às críticas.
Na gravação, Mauro utilizou tom duro e chamou Wellington de “cara de pau”, afirmando que o senador teria influência política sobre o período em que o trecho esteve vinculado ao DNIT e questionando por que não houve solução naquela época.
A manifestação chamou atenção nos bastidores porque veio logo após uma reunião cujo foco principal era ouvir municípios e buscar respostas técnicas para os problemas apresentados.
O ex-governador também defendeu a decisão de estadualização e argumentou que a região permaneceu anos sob gestão federal sem solução definitiva.
Relato técnico de ex-secretária da Sinfra amplia questionamentos
Mas talvez um dos pontos mais sensíveis de toda a discussão tenha sido o relato da ex-secretária adjunta de obras rodoviárias da Sinfra, Nívia Calzolari.
Segundo ela, ainda durante a execução foram identificados pontos de atenção que chegaram a ser formalmente registrados.
Nívia relatou que detectou patologias na pista durante etapas da pavimentação e afirmou que questionou tecnicamente premissas utilizadas no projeto.
“Suspendi o processo e questionei as premissas do projeto para verificar se havia problema entre coeficientes, materiais e dimensionamento”, afirmou.
Ela também declarou que o caso pode indicar necessidade de revisão tecnológica nos modelos utilizados. 
“Se o Estado necessita de uma tecnologia mais aprimorada nos recursos de pavimentação, acredito que o TCE pode olhar para isso”, disse.
Segundo informações citadas durante o debate, Nívia posteriormente deixou o cargo após divergências técnicas em outro projeto estadual — ponto que aumenta a atenção sobre seus apontamentos, embora isso não estabeleça relação automática entre os fatos.
Agora o debate muda de fase
A reunião dos vereadores conseguiu colocar uma discussão regional dentro da agenda estadual.
Mais do que discutir autoria política da obra, o que começou a ser cobrado é explicação.
Explicação sobre qualidade.
Explicação sobre planejamento.
Explicação sobre o que levou uma obra aguardada por tantos anos a se tornar tema de preocupação, prejuízo econômico e risco para quem depende dela todos os dias.
Por: Alex Rabelo — jornalista e analista político | MT Urgente News


