Em diferentes regiões, parentes de prefeitos, senadores e deputados entram na disputa; movimento levanta uma pergunta: isso fortalece os grupos ou torna a competição interna ainda mais desigual?
Você já reparou como, nesta eleição em Mato Grosso, várias candidaturas aparecem ligadas diretamente a nomes que já ocupam ou ocuparam cargos importantes?
Em alguns casos, o eleitor se depara com uma espécie de dobradinha política: um nome já conhecido pede apoio e, ao mesmo tempo, outro integrante da família também entra na disputa.
Esposa de prefeito.
Filha de senador.
Irmã de deputada.
Filho de prefeito.
Ex-esposa de prefeito.
Não há, por si só, qualquer irregularidade nisso. O parentesco não impede automaticamente uma candidatura, desde que as regras eleitorais sejam respeitadas.
Mas politicamente, o fenômeno chama atenção.
A sensação para parte do eleitorado pode ser simples: quem já tem força política tenta ampliar essa presença colocando mais alguém da própria família na disputa.
E isso gera uma questão interessante para esta eleição:
até que ponto essa estrutura ajuda o familiar candidato e até que ponto complica a vida dos demais nomes da mesma chapa?
SAMANTHA DO ABILIO EM CUIABÁ
Um dos exemplos mais visíveis está na Capital.
Samantha Íris, esposa do prefeito Abilio Brunini, disputa uma vaga na Assembleia Legislativa.
Ela já exerce mandato de vereadora e, portanto, possui trajetória política própria.
Mas o próprio nome de urna, “Samantha do Abilio”, mostra como a ligação com o prefeito faz parte da identidade eleitoral construída para esta disputa.
Do ponto de vista político, essa relação pode representar uma vantagem: Abilio possui eleitorado próprio, exposição diária e uma estrutura política consolidada em Cuiabá.
A dúvida é saber quanto desse capital político é transferido automaticamente.
JÉSSICA RIVA E UM SOBRENOME CONHECIDO
Outro caso é Jéssica Riva, irmã de Janaina Riva.
O sobrenome Riva já faz parte da política de Mato Grosso há décadas.
Janaina disputa o Senado, enquanto Jéssica busca espaço na Assembleia Legislativa.
Para o eleitor, isso cria duas leituras possíveis.
Uma é de continuidade de um grupo político que já possui presença e experiência.
Outra é a de concentração de espaço dentro da mesma família.
Qual dessas leituras prevalecerá nas urnas só o eleitor poderá responder.
FILHA DE SENADOR, RAFAELA FÁVARO TAMBÉM ESTÁ NA DISPUTA
No PSD, Rafaela Fávaro, filha do senador Carlos Fávaro, também concorre à Assembleia.
Ela já teve exposição eleitoral própria ao participar da disputa municipal em Cuiabá.
Ainda assim, o sobrenome traz uma vantagem óbvia: reconhecimento.
Quem possui um pai senador, ex-ministro e liderança estadual entra na campanha sem precisar começar do zero em termos de visibilidade.
Mas isso não significa eleição garantida.
Em uma disputa proporcional, o candidato precisa transformar reconhecimento em voto.
RONDONÓPOLIS TEM ALESSANDRA FERREIRA
Em Rondonópolis, Alessandra Ferreira, esposa do prefeito Cláudio Ferreira, também disputa vaga de deputada estadual.
O prefeito possui força política local e capacidade de mobilização.
Isso naturalmente ajuda a candidatura?
Provavelmente ajuda na construção de base, agenda e visibilidade.
Mas também abre outro debate: como ficam os demais candidatos do mesmo partido que disputam o mesmo eleitorado e não possuem uma prefeitura ou liderança desse tamanho por trás?
É uma pergunta, não uma conclusão.
EM ALTA FLORESTA, GEOVANE GAMBA É FILHO DO PREFEITO
No Norte, Geovane Gamba, filho do prefeito de Alta Floresta, Chico Gamba, é outro nome da disputa.
Mais uma vez aparece a mesma lógica.
Uma liderança municipal forte tenta transformar influência local em representação estadual.
Para o grupo político, isso pode ser estratégico.
Para os concorrentes da própria chapa, significa enfrentar alguém que já chega com um município importante como base eleitoral.
SCHEILA PEDROSO MOSTRA QUE NEM TODA RELAÇÃO FAMILIAR É ALIANÇA POLÍTICA
O caso de Scheila Pedroso, ex-esposa do prefeito de Sinop Roberto Dorner, é diferente.
Ela também está na disputa pela Assembleia, mas o ex-prefeito já declarou publicamente que não faria campanha para ela.
Esse exemplo é importante porque mostra que parentesco ou relação familiar não significa automaticamente apoio, estrutura compartilhada ou atuação conjunta.
Cada candidatura possui contexto próprio.
AFINAL, O SOBRENOME AJUDA QUANTO?
Essa talvez seja a pergunta central.
Um nome ligado a uma liderança conhecida normalmente começa a corrida com algumas vantagens:
maior reconhecimento;
mais facilidade para acessar lideranças;
estrutura de campanha já organizada;
rede de apoiadores;
e presença em municípios onde o familiar já possui influência.
Mas existe também um risco.
O eleitor pode interpretar aquela candidatura como alguém tentando construir carreira própria.
Ou pode enxergar simplesmente uma tentativa de ampliação de poder familiar.
Essa percepção varia de caso para caso.
E OS OUTROS CANDIDATOS DA CHAPA?
Esse é outro ponto interessante.
Em eleições proporcionais, todos os candidatos de um partido ajudam a legenda a conquistar vagas.
Ao mesmo tempo, disputam votos entre si.
Por isso, quando um nome entra na disputa carregando prefeitura, mandato, senador, deputado ou estrutura familiar forte, surge naturalmente uma questão interna:
a competição continua equilibrada?
Formalmente, sim.
Todos disputam a mesma eleição.
Mas politicamente, é claro que estruturas não são iguais.
Um candidato sem mandato e sem sobrenome conhecido precisa construir visibilidade quase do zero.
Outro pode começar a eleição já conhecido por milhares de eleitores.
Isso não significa que o partido esteja necessariamente privilegiando alguém.
Significa apenas que candidatos entram na disputa em condições políticas diferentes.
PARTIDOS GOSTAM DESSAS DOBRADINHAS?
Do ponto de vista eleitoral, há motivos para gostar.
Nomes conhecidos podem ajudar a puxar votos, fortalecer a chapa e ampliar presença regional.
Para um partido, ter uma candidatura ligada a um prefeito forte pode significar entrar em uma cidade com estrutura pronta.
Ter alguém ligado a um senador ou deputado conhecido pode ampliar a lembrança da legenda.
Mas também há um desafio.
Quando muitos votos e recursos políticos ficam concentrados em poucos grupos, outros candidatos podem sentir que precisam competir não apenas contra adversários de outros partidos, mas também contra estruturas internas maiores.
É justamente aí que a política interna das chapas se torna mais delicada.
É RENOVAÇÃO OU CONTINUIDADE?
Talvez a eleição de 2026 em Mato Grosso coloque essa discussão de forma ainda mais evidente.
Quando o eleitor vê dois integrantes da mesma família tentando ocupar espaços diferentes, isso pode representar continuidade de um projeto político.
Mas também pode gerar a sensação de que a política circula sempre entre os mesmos grupos.
Não existe uma resposta única.
Alguns candidatos ligados a famílias políticas possuem experiência, trajetória e mandato próprio.
Outros estão entrando agora.
Por isso, colocar todos na mesma categoria seria injusto.
O que pode ser observado é o fenômeno.
As famílias políticas continuam tendo peso real na formação das chapas e das candidaturas em Mato Grosso.
NO FIM, QUEM DECIDE É O ELEITOR
A dobradinha familiar pode entregar estrutura.
Pode entregar visibilidade.
Pode entregar um sobrenome conhecido.
Mas não entrega automaticamente o mandato.
Cada candidato ainda precisa convencer o eleitor de que possui capacidade própria para ocupar o cargo.
E talvez essa seja uma das perguntas mais interessantes desta eleição:
o eleitor vai enxergar essas candidaturas como continuidade de grupos que já conhece ou vai preferir abrir espaço para nomes que chegam sem uma grande estrutura familiar por trás?
Nas urnas, parentesco pode ajudar a abrir a porta.
Mas quem decide quem entra continua sendo o eleitor.
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