Com 54 cadeiras em disputa, eleição para o Senado ganha peso nacional; histórico mostra alto índice de votos brancos, nulos e votação incompleta
A eleição de 2026 não será decidida apenas pela disputa pela Presidência da República ou pelos governos estaduais.
Uma das batalhas mais importantes deste ano acontece no Senado Federal.
Serão escolhidos 54 dos 81 senadores, o equivalente a dois terços da Casa. Cada estado e o Distrito Federal elegerão dois representantes, e o resultado poderá alterar significativamente a correlação de forças dentro do Congresso Nacional.
Esse cenário transformou a corrida ao Senado em prioridade para os principais grupos políticos do país.
De um lado, partidos alinhados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentam ampliar sua presença. Do outro, o PL e aliados do campo conservador trabalham para conquistar uma bancada numerosa e aumentar sua influência sobre a condução da Casa.
O motivo é simples: o Senado possui atribuições que vão muito além da aprovação de projetos de lei.
É a Casa responsável, entre outras competências, pela análise de indicações para o Supremo Tribunal Federal e pelo julgamento de processos de impeachment contra ministros da Corte.
Por isso, conquistar maioria no Senado significa ampliar consideravelmente o poder político em Brasília.
O ELEITOR TERÁ DOIS VOTOS PARA SENADOR
Há ainda um fator que torna esta eleição diferente.
Em 2022, apenas uma vaga para senador estava em disputa em cada estado.
Agora, em 2026, serão duas vagas.
Na urna eletrônica, o eleitor votará primeiro para deputado federal, depois deputado estadual, senador na primeira vaga, senador na segunda vaga, governador e, por último, presidente.
Para o Senado, será necessário escolher dois candidatos diferentes.
Se o eleitor repetir o mesmo candidato nas duas vagas, o segundo voto será considerado nulo.
Isso torna a comunicação de campanha especialmente importante.
Não basta convencer o eleitor de que determinado candidato merece seu voto.
Será necessário disputar também o chamado segundo voto.
O PROBLEMA DA VOTAÇÃO INCOMPLETA
Historicamente, a eleição para senador apresenta um comportamento diferente das disputas para presidente e governador.
Muitos eleitores chegam à urna sabendo em quem votar para presidente, governador ou para apenas um candidato ao Senado, mas deixam a segunda escolha em branco, anulam ou simplesmente não completam a votação.
Na eleição de 2018, quando também estavam em disputa duas vagas ao Senado, o percentual de votos brancos e nulos para senador foi muito superior ao registrado para presidente e governador.
Esse fenômeno é conhecido como não votação por cargo: o eleitor comparece normalmente, mas não registra um voto válido em determinada disputa.
Em 2026, isso volta a preocupar partidos e candidatos.
VOTO DE LEGENDA NÃO VALE PARA SENADOR
Outro ponto que pode gerar confusão é o voto partidário.
Para deputado, o eleitor pode votar apenas na legenda.
No caso do Senado, não.
A disputa é majoritária e o voto precisa corresponder ao número de um candidato registrado. Número inexistente resulta em voto nulo.
Brancos e nulos também não são considerados votos válidos.
Para senador, vence quem receber mais votos, por maioria simples. Como existem duas vagas neste ano, serão eleitos os dois candidatos mais votados de cada estado.
MATO GROSSO TAMBÉM TERÁ DISPUTA FORTE
Em Mato Grosso, a corrida pelas duas vagas apresenta até aqui um grupo de candidatos bastante competitivo.
Levantamentos recentes vêm colocando Mauro Mendes e Janaina Riva nas primeiras posições, enquanto Carlos Fávaro, José Medeiros e Pedro Taques aparecem disputando espaço logo atrás.
O Real Time Big Data divulgado em 3 de setembro mostrou, no resultado consolidado dos dois votos, Mauro Mendes com 27% e Janaina Riva com 26%, tecnicamente empatados. Fávaro apareceu com 14%, enquanto Medeiros e Taques registraram 13% cada.
Mas outro levantamento, do Instituto Veritá, apresentou uma fotografia diferente.
Nele, Mauro apareceu com 33,5%, José Medeiros com 30,4%, Janaina com 21,5% e Fávaro com 20,5%. O levantamento ainda registrou percentual elevado de entrevistados que não souberam responder, reforçando como a definição do segundo voto ainda pode alterar bastante o cenário.
Já o Paraná Pesquisas de agosto mostrou Mauro com 52,3%, Janaina com 33,7%, Medeiros com 18,8%, Taques com 16,5% e Fávaro com 14,6%. Nesse modelo, o entrevistado podia citar até dois candidatos.
As diferenças entre os levantamentos reforçam a necessidade de observar metodologia, forma de apresentação dos resultados e principalmente o comportamento do primeiro e do segundo voto.
ANÁLISE | ALEX RABELO
A ELEIÇÃO AO SENADO PODE SER DECIDIDA PELO SEGUNDO VOTO
Por Alex Rabelo — jornalista e estrategista político
A eleição para senador em 2026 possui uma característica que muitos candidatos ainda parecem subestimar:
não basta ser o primeiro voto do eleitor.
O grande jogo poderá estar no segundo.
Em eleições com duas vagas, uma parcela expressiva dos eleitores entra na cabine já definida para um candidato e ainda sem saber em quem votar na segunda opção.
É aí que existe uma janela gigantesca de oportunidade.
O candidato que conseguir ser aceito como “segunda escolha” de diferentes grupos políticos pode crescer muito, mesmo sem liderar inicialmente as pesquisas de primeiro voto.
E isso vale especialmente para Mato Grosso.
Hoje, Mauro Mendes e Janaina Riva aparecem com vantagem em diferentes levantamentos, mas a disputa pela segunda vaga está longe de ser uma equação simples.
José Medeiros possui eleitorado ideologicamente identificado com a direita e com o PL.
Carlos Fávaro tem estrutura política, presença municipal e ligação com o governo federal.
Pedro Taques carrega recall de ex-governador e ex-senador.
E Janaina possui uma característica eleitoral importante: consegue circular entre grupos diferentes e, em determinadas pesquisas, aparece muito forte justamente no segundo voto.
O próprio Real Time mostrou Janaina liderando isoladamente nesse recorte, com 32% das indicações de segundo voto, contra 19% de Mauro.
Esse dado merece atenção.
O eleitor pode dividir o voto
Uma das grandes particularidades dessa eleição será o chamado voto cruzado.
O eleitor poderá votar, por exemplo, em um candidato ligado à direita e outro de centro.
Ou em um nome governista e outro de oposição.
Não existe obrigação de escolher dois candidatos do mesmo partido ou grupo político.
Por isso, alianças informais, rejeição e capacidade de diálogo poderão ser tão importantes quanto a força partidária.
O PL tem um desafio
Para o PL, a eleição nacional para o Senado é estratégica.
Mas existe um problema matemático.
Quando há duas vagas, concentrar excessivamente a comunicação em apenas um nome pode fazer com que o eleitor simplesmente deixe o segundo voto em branco ou entregue esse voto a um adversário.
Partidos que pretendem construir maioria no Senado precisarão ensinar seus eleitores a usar os dois votos.
Esse será um dos grandes desafios das campanhas nas próximas semanas.
O mesmo vale para o campo governista
O governo também precisará trabalhar de forma coordenada.
Não adianta apenas eleger nomes competitivos isoladamente.
Uma eleição de dois terços do Senado pode mudar completamente a relação entre Executivo, Congresso e Supremo nos próximos anos.
Por isso, PT, PL e partidos de centro tratam 2026 como uma eleição estratégica para a Casa.
Em Mato Grosso, nada está fechado
Minha leitura é que a eleição para senador em Mato Grosso ainda tem muito espaço para mudança.
Mauro Mendes parece chegar à reta decisiva com uma estrutura eleitoral muito forte.
Janaina também apresenta números consistentes e uma capacidade importante de captar segundo voto.
Mas a segunda vaga — e até a ordem final entre os candidatos — pode ser definida justamente pelo eleitor que ainda não escolheu sua segunda opção.
É aí que Medeiros, Fávaro e Taques deverão concentrar esforços.
Nos próximos dias, devemos observar campanhas cada vez mais direcionadas para uma mensagem simples:
“Você tem dois votos. Eu quero um deles.”
Essa provavelmente será uma das frases, explícitas ou não, mais importantes da reta final.
E existe ainda outro detalhe.
Quanto maior a polarização presidencial, maior a tendência de Lula e Flávio Bolsonaro tentarem transferir força para seus candidatos ao Senado.
Mas o comportamento regional nem sempre acompanha automaticamente a disputa nacional.
Mato Grosso já demonstrou em outras eleições que o eleitor pode votar de uma maneira para presidente e fazer uma combinação completamente diferente para cargos estaduais.
Por isso, a eleição ao Senado deve ser tratada separadamente.
Pesquisa mostra fotografia.
Estrutura mostra capacidade de campanha.
Mas, em uma eleição com dois votos, a capacidade de se tornar a segunda escolha pode ser aquilo que realmente decide quem ocupará Brasília pelos próximos oito anos.
Alex Rabelo
Jornalista e estrategista político
MT Urgente News
Fonte principal: g1. Informações complementares: Tribunal Superior Eleitoral, Senado Federal e pesquisas eleitorais registradas para Mato Grosso.