Prefeito dizia que não iria interferir na disputa da Câmara, mas Kassio Coelho afirmou ter conversado com ele para “montar uma estratégia” para a eleição
A disputa pela próxima Mesa Diretora da Câmara Municipal de Cuiabá ganhou um novo capítulo nesta terça-feira (15) e colocou novamente o prefeito Abilio Brunini (PL) no centro das articulações políticas do Legislativo.
O motivo é uma declaração do vereador Kassio Coelho (Podemos), integrante da base governista, que afirmou ter conversado diretamente com o prefeito sobre a eleição da Mesa e sobre a construção de uma estratégia para a disputa.
“Eu até falei com o prefeito ontem, né? A gente vai montar uma estratégia para a eleição”, declarou Kassio.
A fala chama atenção porque contrasta com declarações anteriores de Abilio, que vinha afirmando publicamente que não pretendia interferir na escolha do comando da Câmara.
Na prática, a declaração do vereador reacende uma pergunta que já circulava nos bastidores:
o prefeito está apenas dialogando com sua base ou entrou de vez na articulação para definir quem comandará o Legislativo?
ABILIO VINHA NEGANDO INTERFERÊNCIA
Em entrevistas anteriores, Abilio sustentou que não pretendia se envolver diretamente na eleição da Mesa Diretora.
O prefeito dizia que a escolha caberia aos vereadores e que sua relação com os parlamentares deveria se concentrar em pautas de interesse do município.
Esse posicionamento funcionava como uma tentativa de afastar a imagem de ingerência do Palácio Alencastro sobre o Legislativo.
Agora, porém, a própria fala de Kassio Coelho coloca esse discurso sob questionamento.
Se há uma estratégia sendo discutida diretamente com o prefeito para a eleição da Mesa, a narrativa de que o Executivo está distante do processo passa a enfrentar uma evidente dificuldade política.
REVÉS NO TJMT MUDOU O JOGO
A nova articulação acontece depois que o Órgão Especial do Tribunal de Justiça de Mato Grosso negou pedido do Executivo em uma Ação Direta de Inconstitucionalidade.
A ação buscava alterar trechos da Lei Orgânica e abrir caminho para mudanças no Regimento Interno da Câmara, o que poderia facilitar juridicamente uma nova candidatura da atual presidente da Casa, Paula Calil (PL).
Com a negativa do Tribunal, a situação de Paula ficou mais incerta.
E é justamente a partir daí que surgem nomes alternativos dentro da base.
BASE JÁ TRABALHA COM OUTROS NOMES
Kassio Coelho confirmou que, caso Paula não consiga superar as barreiras regimentais, o grupo governista possui outras opções para a disputa.
Entre os nomes citados estão:
Kassio Coelho, Marcos Brito e Kero Kero.
O próprio vereador admitiu que esses nomes vêm sendo discutidos como possíveis substitutos.
“Ventilou o nome do Kero Kero e Marcos Brito, são dois colegas nossos que estão preparados para também substituir aí a Paula, caso ela não consiga ser candidata”, afirmou.
Isso mostra que a base governista já trabalha com cenários alternativos para tentar manter influência sobre o comando da Câmara.
TRÊS GRUPOS SE MOVIMENTAM
Além do grupo ligado à atual presidente e da base que busca alternativas, outros vereadores também se movimentam.
As chapas lideradas por Ilde Taques (Podemos) e Dilemário Alencar (União Brasil) entram nessa disputa e ajudam a formar um cenário de divisão dentro da Casa.
Na prática, três blocos começam a disputar espaço:
o grupo que tenta viabilizar a continuidade de Paula Calil;
o grupo governista que admite trabalhar com nomes alternativos;
e os vereadores que constroem candidaturas próprias.
ONDE TERMINA O DIÁLOGO E COMEÇA A INTERFERÊNCIA?
Esse é o ponto que deve dominar o debate nos próximos dias.
Prefeitos dialogarem com vereadores é algo normal na política.
Executivo e Legislativo precisam conversar sobre orçamento, projetos, prioridades e governabilidade.
Mas a eleição da Mesa Diretora é uma decisão interna da Câmara.
É aí que surge a discussão.
Se Abilio apenas conversa com aliados, isso pode ser visto como articulação política.
Se participa da definição de nomes, estratégias e movimentos para controlar o comando da Casa, a percepção muda.
A fala de Kassio não prova, sozinha, nenhuma irregularidade.
Mas politicamente coloca o prefeito numa posição desconfortável porque contradiz a imagem que ele vinha tentando passar de neutralidade.
“NÃO VOU INTERFERIR” X “VAMOS MONTAR UMA ESTRATÉGIA”
Essa é a contradição central.
De um lado, Abilio afirmou que não iria interferir.
Do outro, um vereador de sua própria base diz que conversou com ele para montar uma estratégia para a eleição.
As duas falas agora passam a coexistir no mesmo cenário.
E isso abre espaço para uma leitura política inevitável:
o prefeito está mais envolvido do que admitia publicamente?
Essa resposta ainda não está dada.
Mas o debate já está aberto.
A DISPUTA VAI ALÉM DA PRESIDÊNCIA
A eleição da Mesa Diretora não é apenas uma disputa por cargo.
Quem preside a Câmara tem influência sobre a pauta de votações, condução das sessões, organização dos trabalhos e relação institucional com o Executivo.
Por isso, o comando da Casa é estratégico para qualquer prefeito.
Ter uma presidência alinhada facilita diálogo e governabilidade.
Ter uma presidência independente pode aumentar o nível de cobrança.
É exatamente por isso que cada movimento nessa eleição ganha peso político.
O QUE DEVE ACONTECER AGORA
Com a candidatura de Paula ainda cercada de dúvidas jurídicas e com outros nomes sendo ventilados, a tendência é de que as articulações se intensifiquem.
Os vereadores precisarão decidir se seguem a orientação de grupos políticos ou se constroem acordos internos.
Abilio, por sua vez, terá de administrar um novo problema de discurso:
continuar dizendo que não interfere enquanto sua própria base admite que existe estratégia sendo discutida com ele.
No fim, a pergunta que fica é simples:
se o prefeito não interfere, por que a eleição da Mesa está sendo discutida diretamente com ele?
Os próximos dias devem mostrar até onde vai essa participação.
Fonte: Gazeta Digital
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